Mostrar mensagens com a etiqueta da Lua sobre .... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta da Lua sobre .... Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Postal de Boas Festas


Tem sido uma correria, mas cá cheguei toda contente,  o mundo está lindo, muito iluminado, brilha como ouro polido, cheira a mirra , incenso e canela.  

 O Ano Novo anuncia-se, pressente-se no frufru das sedas,  nos smokings que saltam animados do armário, veste- se de gala.

E depois há a Esperança, sempre renovada  nesta altura, com vontade de brindar, dançar , abraçar …


A verdade é que a história é sempre a mesma, embora cada um a conte, todos os anos, à sua maneira e então até aprece novidade.




( Refexão interior- pode parecer uma redundância mas a intenção é outra: noto que este ano há imensa Reflexao Exterior ,a que resulta do brilho ofuscante dos investimentos exagerados em equipamentos LED.

Adiante: 

 Por estes dias deparei-me com a expressão “intelectualidade criativa” . Não sei se compreendi o que li , mas tento encontrar a minha: tenho escrito vários postais de Boas Festas e, modéstia à parte, sinto que me aproximei do mundo do Kitsch, só me falta conhecer o dito-cujo.


-Pára já com isto! - zango- me

- Pronto, está bem, não berres  - respondo- me enquanto penso que as Festas de Natal são cada vez mais cansativas, implicativas , irritativas, ivas, ivas, ivas ….)


Espero que 2025 seja um ano Muito Bom para todos e para mim também.



                                             


                                  


           

                                                                                  

  






               

 Lugares  e instalações que fui fotografando este ano. 
Há uma fotografia que mandei a amigos, agora no Natal, com explicações e comentários. Alguns responderam -me com “ não percebo”, mas houve um, fotógrafo que muito admiro, que me disse que sem explicações teria muito mais graça, (escreveu até umas quatro palavras caras de que  me lembro muito  pouco , só o  “ bizarria” me ficou às voltas na cabeça)  e que se fosse ele o autor a publicaria no Facebook. Há coisas que não faço nem que digam que é Natal, aquela época em que se festeja o  o nascimento de um sem- abrigo dentro de casas confortáveis e quentinhas. 
Mas aqui acho que tudo é possível : este sítio é , sobretudo , sobre tudo o que me apetecer.
E hoje, estas fotografias tornaram- se , por minha vontade, postais  ( aqueles de que falo acima …) e   servem  para dar as Boas Festas e agradecer a quem por cá passa e me visita.  Acho que nunca o tinha feito e isto já tem uns anos. 

Desconhecidos , na sua maior parte.  Sei apenas em que países há gente que procura este blogue e isso  é inspirador , dá imenso gozo . Pensar que sem internet seria muito difícil uma ligação com  o mundo …

Muito obrigada a todos e Boas Festas
LCB

(  a propósito : a letra é propositadamente pequenina ) 






             



sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Horace Silver Quintet - Song For My Father

“One of the most significant jazz performances ever. It's difficult to accept that Denmark and other European countries were so far more advanced in appreciating American jazz than the country where it originated.”
Jon D.Elder( YouTube)

 
 * O meu Pai, que de músico não tinha nada mas tinha graça quando queria, afirmava-se um exímio tocador de campaínha. 
LCB

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

4 YEARS OLD TOOTHPASTE EXPERT HAS FUN WITH LETTERMAN

 Brilhariante !

  É claro que os convidados são escolhidos e ajudam, mas saber falar com crianças é um dom que exige observação e trabalho

David  Letterman é  um mestre da comunicação .

De certa maneira o humor é isso mesmo :  ver as coisas com os olhos de uma criança . E as expressões deste miúdo são engracadissimas.

Na televisão portuguesa ….Hérman José tem uma jeito especial para crianças. Além  disso tem um personagem infantil que é dos meus preferidos:  o Nelito. 

Actualmente só o Vasco Palmeirim se eleva assim. Os seus diálogos com os miúdos são hilariantes.


Mas em Portugal o país do formalismo é  normal assistir- se  a entrevistas em que as perguntas já contêm a respostas, cujo resultado, quando se trata de crianças pode ser  ainda mais patético e deprimente.

Olá, chamas- te Ezequiel e tens cinco anos?

- Siiiim…

-Gostas muito dos teus pais?

Siiiim….

Eles já sabem que tens namorada?

-Siiiim…

 Sabes que nosso Presidente da República se chama se Marcelo Rebelo de Sousa ? 

-Siiiiim…

Tira muitas fotografias com as pessoas e é muito simpático?

-Siiiiim

- Tens seguido a campanha eleitoral , mas não votas nas próximas eleições por teres menos de 18 anos?

- Siiim….

Qual é a tua opinião sobre o Sócrates e o Espírito Santo? Não te parece que já deviam ter sido julgados ?

- Veja :  Sócrates era um filósofo  grego cuja frase, “ só sei que nada sei”,  é célebre e foi condenado, tendo escolhido morrer envenenado com cicuta.

O Espírito Santo é  uma Pessoa da  misteriosa Santíssima Trindade simbolizada por uma pomba a voar que é de quem a apanhar.



Por outro lado , as crianças estão cada vez mais adultas, o que é uma pena.

 Por exemplo aquele rapazinho, o Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido por Chicão, anda  brincar aos presidentes do CDS, faz imensas birras, trata mal os mais crescidos….Perdeu a piada toda.

E o amigo dele  o “jovem prodígio” Sebastião Bugalho que faz comentários políticos em programas  de adultos, sempre de fato domingueiro, a careta séria e  compenetrada de quem convive com os que costuram o futuro da nação..?

Divagações.

 Penso que não desisto :  esta entrevista de tão cómica e bonita, é uma lufada de ar fresco. E respirar bem, relaxa.


domingo, 25 de julho de 2021

Manias!



O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
  Cesário Verde  
 ( 1855-1886)

  Morreu  aos 31 anos com tuberculose , assim como os seus dois irmãos.

  ( quantas pessoas terão morrido tísicas…? Quantas famílias devastadas?
O meu pai, enquanto médico,foi director de um sanatório.)

   Saber disto faz -me pensar  no movimento  que contraria a necessidade e utilidade da vacinação contra o covid . 
 A BCG , que para alguns entendidos não é uma boa vacina, é dada aos bebés, agora sem carácter obrigatório dada a baixa incidência de tuberculose e meningite tuberculosa ( parece - esta palavra dá erro ortográfico , mas acho que não estou a inventar …É que me sinto tão inundada , quase afogada por este tema que nem tenho paciência para ser mais rigorosa e específica nas pesquisas.)
Em Portugal as únicas vacinas obrigatórias são a do tétano e difteria .
Quem quiser saber mais , pode consultar o Plano Nacional de Vacinação .
De resto quero, mais do que dizer, afirmar por escrito que sou a favor da vacinação obrigatória sempre que a saúde pública seja ameaçada e prejudicada como está a acontecer com o Coronavirus.
A liberdade individual é um valor, um princípio  conquistado com o esforço de muita gente, durante muitos anos. Mas não é um direito absoluto. Nunca será e deve ceder quando estiver em causa , como agora, a saúde e a vida de tantas pessoas em todo o mundo.
Encontrei o meu boletim de vacinas . Sem a vacina do tétano não poderia ter entrado na universidade. Nunca questionei a imposição, nem conheço quem o tenha feito. Foi preciso esta pandemia para indagar o porquê de tal atitude e ficar contente por não o ter feito. Apesar da ignorância e falta de consciência, era ainda o tempo em que se confiava na ciência e  o médico de família era da família, porque a conhecia. 
Pode dizer- se que a informação era escassa, mas agora a informação é excessiva. 
Eu não sou da ciência.
No entanto, como qualquer ser humano, sou da política. E é política e consciente  a minha atitude agora: sou contra a imposição das minorias e a intolerância dos chamados tolerantes. Sou contra o individualismo histérico  e irracional  e a sede de protagonismo vigentes. Rejeito toda a tentativa de propaganda socialmente correcta. 
 Na realidade “ engrupir” nunca fez o meu género.
( Faz- se tarde.)





Enfim, estraguei um poema tão bonito como irónico e até sarcástico deste grande poeta português que se diz ter sido o percursor da moderna poesia de Portugal. 
Resolvi, de vez em quando, se me apetecer, escrever algumas notas que poderei mais tarde desenvolver, ou não. Como quase ninguém aqui faz comentários, mas tenho conhecimento de que algumas pessoas lêem ou vêem e ouvem o que aqui publico (muito obrigada!), coisa fascinante da internet e da globalização,  deixo cá a explicação, não vá pensarem que ensandeci ( o que, diga- se a verdade, é, neste contexto, absolutamente irrelevante.)
Aliás já tenho feito um bocadinho isso mesmo: o blogue serve- me de caderno de apontamentos.
LCB

sábado, 25 de janeiro de 2020

Fazia-se silêncio


“O Congresso do CDS começou com um momento in memoriam em honra do fundador do CDS, Diogo Freitas do Amaral. No 28.º Congresso do CDS, a decorrer esta sábado e domingo em Aveiro, os militantes foram convidados a honrar o ex-ministro português que morreu a 3 de Outubro de 2019. No entanto, o minuto de silêncio não foi geral, já que os presentes estavam a entrar no pavilhão, sem se aperceberem do momento que se cumpria, conversando uns com os outros.
Luís Queiró, presidente da mesa do Congresso, pediu ainda que se lembrassem dos centristas históricos Carlos Alberto Rodrigues e Ivone Fonseca.”

A fotografia de Freitas do Amaral estava... pendurada.

A revista Sábado chama a este momento “um minuto de (quase) silêncio”, o que não é o mesmo que (quase) um minuto de silêncio…ou será?
Dúvida parva. Foi uma (quase) homenagem, claro.
E o que é isso? É uma encenação, um faz de conta que está na moda.
E o que é que significa? Significa, por exemplo, que o silêncio tem hoje muito pouco valor, é até incómodo; o que é importante é fazer barulho, sobretudo quando se pede silêncio.

Neste tipo de espectáculos de competição e festivaleiros, o ruído para pedir silêncio dá a impressão de que o que se quer é calma, quietude, mas na verdade o que se pretendeu foi despachar uma tarefa, adiantar serviço enquanto o que realmente importa não começa. Há agitação natural, encontros, conversas, as pessoas não estão acomodadas, encaixadas, a sala não está ainda cheia, não é possível dar início à ordem de trabalhos e às intervenções orais. Se o pedido de silêncio gera ainda mais barulho, só aparentemente é ineficaz, provavelmente a algazarra foi conveniente, uma descompressão antes da luta que será renhida.
Há tanto para falar que não faz sentido interromper discussões tão importantes para pedir silêncio por gente que já  não está viva. Seria mesmo uma falta de respeito pelos presentes. Assim fazem-se minutos de (quase) silêncio. Formalidade que engana, preenche o tempo que de outra forma seria inútil, até prejudicaria o início rápido da sessão.
Neste caso, o de hoje, usou-se então a imagem e a memória de quem já morreu.
Na verdade houve um abuso sob a forma de homenagem. Daí o Quase que é pior, muito pior do que NADA. 

A hipocrisia parece cada vez mais forte, mas perdeu subtileza, tornou-se descarada, despudorada. Já não precisa sequer de ser inteligente.

Vivemos, porque deixamos que isso aconteça, no mundo do vale tudo: qualquer coisa serve, qualquer coisa passa.

Para quem é bacalhau basta, hão-de pensar. E se ladrarem? A caravana passa de qualquer maneira.


LCB

domingo, 6 de outubro de 2019

António Zambujo - "Beijos de fogo"

 Muito bonito.

(Hoje, muitos portugueses  beijaram a boca das urnas sem  paixão. 
Não há fumo nem há chama, já vem sendo habitual. 
A boca das urnas é cada vez mais suja e mais feia mas, ainda assim, lá mais um beijinho.....

A normalidade do politicamente correcto é, mais do que inútil, prejudicial.
O direito a votar está a tornar-se um cliché. E assim a democracia portuguesa.
Não, nem tudo isto é fado.
LCB )


 






Silêncio nem uma pena
Quero a minha alma serena
Sem soluços na cidade
Sequei meus olhos chorados
Pus no peito cadeados
P'ra não entrar a saudade

Numa atitude mais louca
Pousei sobre minha boca
Rosas fogo de quem ama
P'ra se me vencer a fome
De querer gritar teu nome
Meus lábios fiquem em chama

Mas a noite é um segredo
Confesso que tenho medo
E ao mesmo tempo desejos
De ouvir silêncios rasgados
De quebrar os cadeados
De te queimar com meus beijos

Mario Rainho / Georgino De Sousa (Fado Georgino)





Silence is not a shame

I want my soul serene

No hiccups in town

I dried my eyes crying

Pus chest padlocks

I can not miss it.



In a crazier attitude

I landed on my mouth

Roses fire of who loves

If I get beat up with hunger

To want to shout your name

My lips are on fire.



But night is a secret.

I confess that I'm afraid

And at the same time wishes

To hear ripped silences

Of breaking the padlocks

Burn with my kisses






sábado, 29 de dezembro de 2018

Herman José - José Chunga

Desejo a todos continuação de tudo bem.



Há muitos anos atrás (!é sempre bom que o passado não se confunda com o futuro! ) o meu pai afirmou publicamente:

- Eu cá sou é da ordem da malta!
Começámos todos – excepto a minha mãe que, por ter nascido numa sexta feira-santa, dizia que não tinha sentido de humor- a rir , a rir , a rir perdidamente (eu, estupidamente, porque não percebi o trocadilho: sabia que de um país com esse nome. De resto, achava "malta" uma palavra cómica que associava a uma espécie de Portugal dos pequeninos , todos muito parecidos , a brincar aos grandes cavaleiros com a roupa dos pais; "ordem" estava relacionada com a forma avermelhada e cuspida que o meu professor de matemática arranjou para me dizer que eu tinha cara de parva e não percebia nada daquilo , obrigando-me a passar para a carteira da frente. Fiquei com a mesma cara.).



Sempre gostei muito de geografia, história, política-tenho até uma faceta protestante- e de fazer o bem: procuro realizar os interesses relacionados exclusivamente com a minha própria pessoa (e imprópria também), especialmente aqueles que dizem respeito à auto- motivação de mim mesma enquanto eu com letra grande. 


Assim é que anos depois à frente (!) da declaração passada atrás(!) do meu pai, posso afirmar que a ordem da malta é uma desorganização humanitária que me faz rir e por isso contribui muito para o bem-estar da pessoa humana que sou.
A malta não caímos, derivados à malta estar sempre em alta.



* derivado à dúvida que possa aparecer quanto aos erros ortográficos deste texto, esclareço que “derivado à” está correcto . Dizem que é uma figura de estilo, a do escritor António Lobo Antunes, o loboantunismo. Acrescentei aquele ”s” que faz toda a diferença, pois sou da ordem da malta, como o meu pai que também se chamava José.
LCB

sábado, 1 de setembro de 2018

Mercado do Bolhão - Richard Zimler


Há dez anos....
Em 2018 isto interessa???? 
A destruição do património, da língua, dos costumes ....  Onde está a cultura portuguesa?  Onde pára a   nossa identidade , o que nos distingue de outros países, de outros povos? Que poderemos mostrar, contar sobre o nosso País aos nossos filhos , aos nossos netos?
  -Portugal   é hoje um lugarejo na cauda da  Europa.
  -Ah , a Europa... O que é ?
  -É um velho continente que nunca , nunca foi unido !
  -Não , não a Europa é o Euro , são os euros. O resto é História, ou melhor(?),  Portugal passou à história!  

( valha-nos a romaria da Senhora da Agonia...)
LCB


       <iframe width="550" height="309" src="https://www.youtube.com/embed/TfdCLIXvd-4?rel=0" frameborder="0" allow="autoplay; encrypted-media" allowfullscreen></iframe>

domingo, 29 de abril de 2018

Amor Estrábico




Não que se lembrasse do "Ai ! tão pequenina e já d'óculos",  com que a gente que à sua volta se juntava a brindava num misto de espanto e comiseração . Era a mãe quem, mais tarde , lhe falava por graça desse episódio da sua infância.

Mariazinha tinha sido estrábica , foi operada cedo por volta dos cinco anos. Uns óculos minúsculos de massa esverdeada, tapados no olho esquerdo com adesivos pardos , continuavam no seu quarto e as fotografias da altura davam-lhe uma ideia da imagem que tinha nessa época.

(Aos seis tiraram-lhe as amígdalas, mas deram-lhe gelados em barda e uma espécie de mazagran de cevada que lhe ficaram para sempre na memória.)


Até aos cinco anos Mariazinha dava nas vistas, por assim dizer, chamava a atenção. Não fora um olho desalinhado, teria sido uma criança que passava despercebida.

Foi o que aconteceu mal o olho foi ajustado. Deixaram de reparar nela.

Cresceu pouco e c
resceu muito sozinha. Acanhada, os amigos que tinha contavam-se pelos dedos. Tornou-se uma mulher pequena , solitária e tímida

Um dia conheceu um homem muito grande, sedutor, manipulador.. Impunha-se, não a largava.

No calor de uma questiúncula ele atirou-lhe que ficava linda quando se irritava, porque os olhos viajavam às avessas , cada um para seu lado.

Aí sim: veio-lhe à cabeça o " tão pequenina já d'óculos", tantas vezes falado, mas nunca sentido.

-Como adivinhaste? - perguntou-lhe amarela-atónita

-Adivinhei o quê??!!! - retorquiu vermelho-fúria

-Que fui estrábica...

-Adivinhei nada , não foste: és!


Estupidamente, apaixonou-se por ele. Casaram no mês seguinte, prendeu-a até morrer.

LCB




quarta-feira, 25 de abril de 2018

Democracia à portuguesa


"sexta-feira, 25 de abril de 2014


A democracia portuguesa teve início a 25 de Abril de 1974 e, 40 anos depois, há quem diga que  ainda está em construção… Pois não falta por aí quem lhe queira retirar o alvará e embargar obra. "
LCB

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Meditation ( Thais) de Jules Massenet- Christian Li

O homem era duro de ouvido. Costumava dizer, com o seu inconfundível sentido de humor , que tocava muito bem campainha.
O rapazinho gostava de música, tocava violino desde muito pequeno. O homem chamava lhe Periquito.
Um dia perguntou-lhe se sabia tocar o Hino Nacional. O rapaz tocou. A partir daí, invariavelmente:
-Periquito, toca o Hino Nacional.
Fazia-se silêncio e ouviam-se os sons de ”A Portuguesa”.
Todos os presentes, quase sempre os mesmos, adivinhavam já e respeitavam aquele momento.
A cena tinha graça. Mesmo que não tivesse, o homem e o rapaz não queriam saber. Era uma coisa deles, um ritual, uma forma de reconhecimento mútuo.
Durante anos foi assim. ”Periquito, toca o Hino nacional” acompanhou o crescimento do rapaz e o envelhecimento do homem. A vida de ambos.
Naquele dia solene, o homem jazia sob uma antiga e delicada colcha de seda da Índia que tinha sido usada em muitas cerimónias alegres da sua vida.
Um violino desconsolado chorava "Méditatio n"( Thaïs) de Jules Massenet. Periquito tocava com o que lhe ia na Alma. 

( 1 de Dezembro de de 1929/ 18 de Agosto de 2017)

LCB

 

***** Cristian Li é um músico extraordinário com controlo total do violino e performances emocionantes, plenas de sentimento e paixão.*****



terça-feira, 31 de outubro de 2017

AFONSO DOS REIS CABRAL- O MEU IRMÃO( excerto)



   “ De cima do monte, o Tojal tem o tamanho de uma mão. É um daqueles lugares que Portugal deixou morrer, mas agora, com o descalabro – e de certa forma foi para nos afastarmos dele- que fugimos durante alguns dias -, talvez as pessoas voltem às tocas para lamber as feridas. O descontentamento sobe pelas paredes, rebenta com o betão, mas não sai do sítio. Implodimos mais do que explodimos e tudo fica na mesma, a não ser, claro, as nossas circunferências, que são desfeitas. Vivemos como sacos de carne podre muito bem fechados e contidos mas a morrer por dentro. As manifestações não são mais do que uma ruptura nessa morte, como os afogados que ainda tentam respirar antes de a água os engolir.
  (…)
   Quando isto acabar, quando a crise tiver outro nome, sobreviveremos cada um para o seu canto, cada um mais estropiado do que o outro. Depois aos poucos, voltará tudo ao normal um certo belo dia em Lisboa, daqueles que Lisboa tem, como já ninguém se lembra do descalabro e até está uma brisa agradável, alguém arranjará como nos lixar outra vez.
   Mas, enfim, que sei eu? Não passam de considerações à vista de uma aldeia abandonada.”



  * lendo apenas esta passagem não se imagina qual é o tema do  livro - a relação entre dois irmãos , um deles com o síndrome de       Down -, nem a singularidade notável com que é  tratado.
    Também do ponto de vista literário este romance é especial. A forma invulgar como o autor ( nascido em 1990) intercala no texto os pensamentos do narrador, que fala com os seus próprios botões (a tal nuvem, em cima da cabeça do personagem, da banda desenhada), o uso inspiradíssimo de imagens, metáforas e comparações, dão a esta obra a expressividade e  "tonalidade lírica" que a tornaram merecedora do prémio Leyca 2014.
Gostei muito de o ler.

( e pronto, fiz  uma redacção .
Era assim que se chamava há, muitos e durante, anos - sem atrás , mas a fio -  a composição nos exercícios escritos da disciplina de  língua  portuguesa. Talvez erradamente, talvez não... Diferente , com certeza.)
 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

A administração do tempo -Dinis Machado

 O excerto de um belíssimo texto  de Dinis Machado  sobre "a questão do tempo (...) aquela que estipula melhor  o que há de esquivo e penoso na efemeridade humana" .

Um relógio velhinho, velhinho, de aspecto curioso e particularmente vigilante. Nunca é  esquecido: muito estimado e tratado a tempo e horas.
Ilude, parece que tem vida ... Dizem que há quem tenha perdido a noção do tempo, por se  ter demorado a admirar o movimento contínuo daqueles olhos ao som dos ponteiros sempre a andar, a andar, sempre ...
 



"Olho o anúncio do relógio Omega. A vida não pára, fonte e foz, passar é a sua vocação - e o relógio fixa, ancorado no tempo, alheio a tudo: nove horas e treze minutos. Ou tem o mecanismo  escangalhado, ou esqueceram-se dele. Não administrado, ausente é a sua filosofia de pequenas rodas dentadas; ferrugenta e gasta, completamente inútil, a memória que não tem."
(Dinis Machado - Gráfico de Vendas com Orquídea
e outras formas de arrumar conhecimentos - 20 textos de 1977 a 1993- Lisboa, 1999, edições Cotovia ) 



quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre o Dia da Implantação da República

Estou a pensar que se a expressão " rainha do presidente" até fica bem , falar em "presidente do rei" não lembra a ninguém ( parvoíce, pronto ).

Quer se queira quer não, hoje é um dia importante na História de Portugal que gera sempre muita polémica. Por isso resolvi hastear uma bandeira no Abreu do meu Castelo que, não é por acaso que, é Branco.

Embora seja o Dia da Implantação da República que actualmente se celebra , gosto sempre e todos os dias da ideia da Independência de Portugal associada ao Tratado de Zamora. É tanto mais importante, quanto é nebuloso o contexto político- económico em que vivemos na desunião Europeia e nesta republica das Bananas.

A Monarquia em Portugal é, na minha opinião, uma utopia nos tempos que correm, em primeira mão pelas amostras de candidatos a Rei que se conhecem. Mesmo que goste da Ideia, não sei quem poderia por mérito e valor próprios ser Rei de Portugal .
 São igualmente desestruturados movimentos e partidos a favor da Monarquia. 
É que a falta de valores, de carisma, de exigência, de qualificação , mérito, cultura, educação, independência, honestidade, honra, não são defeitos de Republicanos, ou de Monárquicos, deste(s) ou daquele(s). É um vazio que vem de longe, que é de todos os portugueses e que todos prejudica. Precisamos de o preencher quanto antes, unindo-nos, invertendo a situação a fim de construir um País com Pessoas de que realmente nos possamos orgulhar.
Somos todos a mesma gente.

LCB
O Tratado de Zamora foi um diploma resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e seu primo, Afonso VII de Leão e Castela.…

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Eleve-se e chegue longe (Lift and reach), diria Joseph Pilates

Ontem  foi um dia em que estava  lua... não perdi o sobretudo , mas as chaves todas, sobretudo aquela que me permitiria dar uma aula "normal"
 No entanto  a Elsa , que treina comigo há dois anos e conhece  estas minhas fases, dispôs-se com a maior das boas vontades a ter aula no "sitio" dela, um estúdio de cerâmica e restauros.
 Ao calor do dia   juntava-se o do forno que,  àquela hora da tarde, costuma estar sempre ligado.
Não havia colchão, nem nada que o substituísse. Aquele chão,  de mosaico, é muito duro.

Há pessoas com uma força de vontade incrível e que não cedem às contrariedades .E a Elsa é uma delas . Tem artroses congénitas em várias( muitas) articulações que,  ainda em criança,  se manifestaram primeiro nos joelhos a que já foi operada duas vezes. Este ano já teve várias crises, mas esta mulher, cujo trabalho requer , além da criatividade, força e agilidade, não desiste : faz natação e treina Pilates como se de nada sofresse, como se as dores  não fossem as delas .
A Elsa, como se pode ver pela fotografias ,  é uma atleta,  compreende o exercício, a importância dele e executa-o admiravelmente.
 São exemplos deste que nos incentivam , que nos fazem querer continuar e melhorar. E quando a Elsa diz
  "Sabes? Isto faz-me falta"  eu fico  muito, mas muito contente.
 Sim, ontem perdi as chaves, mas em compensação  guardei  alguns momentos do treino. Fiquei a ganhar.
 LCB





domingo, 1 de maio de 2016

O gato remeumeu ( interpretado pelas Cantadeiras do Vale do Neiva) , a minha minha Mãe e eu...

 Também devo à minha Mãe o facto me ter posto a ouvir música, praticamente, desde o dia em que nasci. Foi marcante, moldou muito a minha personalidade, não tenho dúvida.

 Fui educada no
 interior do Minho.  Vivíamos em Freixo, uma terra com dois largos : o da Igreja (muito perto estava a escola primária) e o da Feira, à volta do qual havia uma "Casa do Povo", casas como a nossa, uma farmácia, duas mercearias, alguns (nessa altura talvez dois ), cafés, talho, loja de ferragens, relojoaria e pouco mais... Aí havia feira de quinze em quinze dias e paravam as "carreiras" que mais tarde nos levariam, aos que continuaram a estudar,  para a escola em Ponte de Lima e liceu em Viana do Castelo (nessa altura já só ia a casa  uma vez por semana.)
De vez em quando passava por lá a carrinha da Biblioteca Itenerante ( grande Gulbenkian!)
Lembro-me de não haver luz eléctrica na aldeia.

O rádio ficava todo o dia ligado ao pé do berço. Sempre houve música por todo o lado, até na casa de banho.
 O meu Pai era mais para os livros. Sendo "duro" de ouvido ,dizia que  tocava campainha muito bem... No entanto era engenhocas , gostava de máquinas e também deste ambiente, que era alegre, lúdico e pedagógico. Colaborava, arranjando boas e modernas "aparelhagens", mandando vir colecções musicais pelo correio.... Sem ele e o seu engenho nada teria sido possível.
Mas é à minha Mãe e à sua sensibilidade musical que devo (e os meus irmãos também) não só o gosto, mas também a curiosidade por variadíssimos tipos de música e sonoridades.

Vêm-me à memória as viagens de carro para a praia em que, muito pequenos, todos cantávamos e só eu desafinava... A minha Mãe fazia-me tomar consciência disso, deixando-me fula, é claro, mas também me ensinava e emendava. Água mole em pedra dura "taratara" , um dia deixei de estragar o coro da ida à praia ( ó que bonita!), ou o "coiro" passou a coro....

 E não me esqueço das cassettes que mais tarde lhe gravava para o carro, depois de horas, dias, de selecção cuidadosa . Durante anos houve essa " brincadeira" entre nós...

Uma das canções que cantávamos ,embora de forma ligeiramente diferente e pior com certeza mas, pelo menos, a duas vozes ( depois... já não sei se era a Mãe quem fazia o "rabo"), era esta :






LCB

sábado, 2 de janeiro de 2016

Memórias das Infâncias



Gostávamos muito de doce de framboesa

e deram-nos um prato com mais doce de framboesa

do que era costume

mas

a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa

para nosso bem

porque estávamos doentes

esconderam colheres do remédio

que sabia mal

o doce de framboesa não sabia à mesma coisa

e tinha fiapos brancos

isso aconteceu-nos uma vez e chegou

nunca mais demos pulos por ir haver

doce de framboesa à sobremesa

nunca mais demos pulos nenhuns

não podemos dizer

como o remédio da nossa infância sabia mal !

como era doce o doce de framboesa da nossa infância !

ao descobrir a mistura

do doce de framboesa com o remédio

ficámos calados

depois ouvimos falar da entropia

aprendemos que não se separa de graça

o doce de framboesa do remédio misturados

é assim nos livros

é assim nas infâncias

e os livros são como as infâncias

que são como as pombinhas da Catrina

uma é minha

outra é tua

outra é de outra pessoa

 Adília Lopes
(O Decote da Dama de Espada
s )


*Lá em casa também havia imensas( crescem como mato ,quase não precisam de cuidados) e quase todos gostavámos de doce de framboesa.... mesmo que não gostássemos, comíamos . Todos os dias. Havia tanto... tinha que se lhe dar vazão.

Não nos deu a veia. .. Aliás a Adília Lopes é única .

Com o passar do tempo e a chegada dos netos, as pessoas tornam-se mais tolerantes, amaciam. Assim também lá em casa: o doce deixou de ser impingido .


Um dia, à hora do lanche , entre uma criança de quatro anos e a sua avó:
- Quer compota, Manel?
- Sem pota, Vó , obrigado.

Que me lembre, foi este o diálogo mais poético que, entre nós, aconteceu a propósito de framboesas.
LCB