Lovely
Esta vida tem de tudo. Escrevo sobre o que vejo, o que sinto, o que me interessa, sobretudo se e quando me apetecer. Se me lembrar, posso até contar a história do sobretudo que perdi num dia em que estava mesmo na lua...
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
"Women holding things." -- Maira Kalman
sábado, 2 de novembro de 2024
Daniel Faria - Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor
Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados
Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue
Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar
Homens que são como Lugares mal Situados foi publicado no verão de 1998, quando Daniel Faria tinha vinte e sete anos. Viria a morrer cerca de um ano depois, no Mosteiro Beneditino de Singeverga, onde era então noviço.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Perdigão perdeu a pena - Luís de Camões
Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a u~a alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
Luís de CamõesDesenho de Fernando Campos
*Era um poema que o Vaga Zé dizia muitas vezes*
terça-feira, 25 de abril de 2023
AVENIDA DA LIBERDADE
Subamos e desçamos a Avenida,
enquanto esperamos por uma outra
(ou pela outra) vida.
terça-feira, 7 de março de 2023
Carta (Esboço)
Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
Conjunto Júlio - Ninguém
A dor que minha alma sente
A dor que minha alma sente
não na sabe toda a gente!
Que estranho caso de amor,
que desejado tormento:
que venho a ser avarento
das dores da minha dor!
Por me não tratar pior,
se se sabe, ou se se sente
não na digo a toda a gente.
Minha dor e a causa dela
de ninguém a ouso fiar:
que seria aventurar
a perder-me ou a perdê-la.
E pois só com padecê-la
a minha alma está contente,
não quero que o saiba a gente.
Anda no peito escondida,
dentro n’alma sepultada;
de mim só seja chorada,
de ninguém seja sentida.
Ou me mate ou me dê vida,
ou viva triste ou contente,
não ma saiba toda a gente.
Luís Vaz de Camões
domingo, 6 de novembro de 2022
Judi Dench | The Owl and the Pussy-cat by Edward Lear
The Owl and the Pussy-Cat
BY EDWARD LEAR
I
The Owl and the Pussy-cat went to sea
In a beautiful pea-green boat,
They took some honey, and plenty of money,
Wrapped up in a five-pound note.
The Owl looked up to the stars above,
And sang to a small guitar,
"O lovely Pussy! O Pussy, my love,
What a beautiful Pussy you are,
You are,
You are!
What a beautiful Pussy you are!"
II
Pussy said to the Owl, "You elegant fowl!
How charmingly sweet you sing!
O let us be married! too long we have tarried:
But what shall we do for a ring?"
They sailed away, for a year and a day,
To the land where the Bong-Tree grows
And there in a wood a Piggy-wig stood
With a ring at the end of his nose,
His nose,
His nose,
With a ring at the end of his nose.
III
"Dear Pig, are you willing to sell for one shilling
Your ring?" Said the Piggy, "I will."
So they took it away, and were married next day
By the Turkey who lives on the hill.
They dined on mince, and slices of quince,
Which they ate with a runcible spoon;
And hand in hand, on the edge of the sand,
They danced by the light of the moon,
The moon,
The moon,
They danced by the light of the moon.
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Love Poem for No-one in Particular
Let me touch you with my words
For my hands lie limp as empty gloves
Let my words stroke your hair
Slide down your back
And tickle your belly
For my hands, light and free flying as bricks
Ignore my wishes and stubbornly
Refuse to carry out my quietest desires
Let my words enter your mind
bearing torches
Admit them willingly into your being so they may caress you gently
within.
Mark O'Brien
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre a minha caixa torácica.
Matilde Campilho
segunda-feira, 21 de março de 2022
A Bicicleta
saiu de casa no dia
25 de Janeiro.
Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
Alexandre O’Neill
in:As
horas já de números vestidas(1981)
sexta-feira, 18 de março de 2022
Balada do país que dói
O barco vai
o barco vem
português vai
português vem
o corpo cai
o corpo dói
português vai
português cai
o barco vai
o barco vem
português vai
português vem
o país cai
o país dói
o tempo vai
o tempo dói
português cai
português vai
português sai
português dói
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Isto é o meu corpo - José Tolentino de Mendonça
O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
umdesabamentoquecomeça do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
deondevemestebraçoquetoca no outro,
deondevêmestaspernasentrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
This is my body
The body has steps, all of them steep
thousands of reminders of its own endurances
inheritance, geometry
acollapsethatbegins inside out
and shapes that nobody hears
The body is never the same
even when repeating itself:
whencethisarmtouching the other,
whereofthisintertwiningoflegs
how to reach this foot that I place ahead?
I don’t learn with the body to rise
I learn to fall and to question
(Translation by Ana Hudson)
domingo, 25 de julho de 2021
Manias!
O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa! Cesário Verde ( 1855-1886)
Morreu aos 31 anos com tuberculose , assim como os seus dois irmãos.
( quantas pessoas terão morrido tísicas…? Quantas famílias devastadas?O meu pai, enquanto médico,foi director de um sanatório.)
Saber disto faz -me pensar no movimento que contraria a necessidade e utilidade da vacinação contra o covid . A BCG , que para alguns entendidos não é uma boa vacina, é dada aos bebés, agora sem carácter obrigatório dada a baixa incidência de tuberculose e meningite tuberculosa ( parece - esta palavra dá erro ortográfico , mas acho que não estou a inventar …É que me sinto tão inundada , quase afogada por este tema que nem tenho paciência para ser mais rigorosa e específica nas pesquisas.)Em Portugal as únicas vacinas obrigatórias são a do tétano e difteria .Quem quiser saber mais , pode consultar o Plano Nacional de Vacinação .De resto quero, mais do que dizer, afirmar por escrito que sou a favor da vacinação obrigatória sempre que a saúde pública seja ameaçada e prejudicada como está a acontecer com o Coronavirus.A liberdade individual é um valor, um princípio conquistado com o esforço de muita gente, durante muitos anos. Mas não é um direito absoluto. Nunca será e deve ceder quando estiver em causa , como agora, a saúde e a vida de tantas pessoas em todo o mundo.Encontrei o meu boletim de vacinas . Sem a vacina do tétano não poderia ter entrado na universidade. Nunca questionei a imposição, nem conheço quem o tenha feito. Foi preciso esta pandemia para indagar o porquê de tal atitude e ficar contente por não o ter feito. Apesar da ignorância e falta de consciência, era ainda o tempo em que se confiava na ciência e o médico de família era da família, porque a conhecia. Pode dizer- se que a informação era escassa, mas agora a informação é excessiva. Eu não sou da ciência.No entanto, como qualquer ser humano, sou da política. E é política e consciente a minha atitude agora: sou contra a imposição das minorias e a intolerância dos chamados tolerantes. Sou contra o individualismo histérico e irracional e a sede de protagonismo vigentes. Rejeito toda a tentativa de propaganda socialmente correcta. Na realidade “ engrupir” nunca fez o meu género.( Faz- se tarde.)
Enfim, estraguei um poema tão bonito como irónico e até sarcástico deste grande poeta português que se diz ter sido o percursor da moderna poesia de Portugal. Resolvi, de vez em quando, se me apetecer, escrever algumas notas que poderei mais tarde desenvolver, ou não. Como quase ninguém aqui faz comentários, mas tenho conhecimento de que algumas pessoas lêem ou vêem e ouvem o que aqui publico (muito obrigada!), coisa fascinante da internet e da globalização, deixo cá a explicação, não vá pensarem que ensandeci ( o que, diga- se a verdade, é, neste contexto, absolutamente irrelevante.)Aliás já tenho feito um bocadinho isso mesmo: o blogue serve- me de caderno de apontamentos.LCB
sábado, 24 de outubro de 2020
IF- Rudyard Kipling's poem, recited by Sir Michael Caine
A interpretação de Michael Caine e as considerações à volta dele são....formidáveis.
domingo, 14 de junho de 2020
A PAIXÃO GREGA
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Adília Lopes
"Escrevia
porque estava sozinha
e queria estar
com pessoas
Depois
estava com pessoas
e queria estar sozinha
para escrever"
( gosto tanto desta poetisa... )
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
CARNAVAL
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira...
A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa...
Cada momento é um carnaval imenso
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso
De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça...
Automóveis, veículos, (...)
As ruas cheias, (...)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.
Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (...)
Uma pândega esta existência toda...
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda...
E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo...
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem
Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo...
Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles
E o mesmo ar conjuga-nos
Tenho às vezes o tédio de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras...
Gasto inúteis horas inteiras
A descobrir quem sou; e nunca deu
Resultado a pesquisa... Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim
Já estou como antes fora dele. É engano
A gente ter confiança em quem tem ser...
(...)
Olho p'ró tipo como eu que ai vem...
(...)
Como se veste (...) bem
Porque é uma necessidade que ele tem
Sem que ele tenha essa necessidade.
Ah, tudo isto é para dizer apenas
Que não estou bem na vida, e quero ir
Para um lugar mais sossegado, ouvir
Correr os rios e não ter mais penas.
Sim, estou farto do corpo e da alma
Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se...
Cada momento é um corpo no que nasce...
Mas o que importa é que não tenho calma.
Não tenciono escrever outro poema
Tenciono só dizer que me aborreço.
A hora a hora minha vida meço
E acho-a um lamentável estratagema
De Deus para com o bocado de matéria
Que resolveu tomar para meu corpo...
Todo o conteúdo de mim é porco
E de uma chatíssima miséria.
Só é decente ser outra pessoa
Mas isso é porque a gente a vê por fora...
Qualquer coisa em mim parece agora
ÁLVARO DE CAMPOS
( heterónimo de Fernando Pessoa)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
As quatro canções que seguem
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou...
Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são.
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira…
Devo ser todo doente — ideias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra coisa.
Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário...
Alberto Caeiro
( heterónimo de Fernando Pessoa)
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Cantiga sua, partindo‑se ( Sec XV)
Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns* por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns* por ninguém.
* no original o "u" tem um til (~) por cima.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.
Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas.
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos
( heterónimo de Fernando Pessoa )

