Mostrar mensagens com a etiqueta FERNANDO PESSOA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FERNANDO PESSOA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

FERNANDO PESSOA- Livro do Desassossego - Máximas


- A nossa personalidade deve ser indevassável, mesmo por nós próprios: daí o nosso dever de sonharmos sempre, e incluirmo-nos nos nossos sonhos, para que nos não seja possível ter opiniões a nosso respeito.
E especialmente devemos evitar a invasão da nossa personalidade pelos outros. Todo o interesse alheio por nós é uma indelicadeza ímpar. O que desloca a vulgar saudação - como está?- de ser uma indesculpável grosseria é o ser ela em geral absolutamente oca e insincera.



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Fernando Pessoa - Livro do Desassosego ( excerto)


Disse Bernard Shaw que a única coisa que a História nos ensina é que a História nada nos ensina. Não é bem assim: aqui, como muitas outras vezes, Shaw sacrifica a frase à frase. O que verdadeiramente a História nos ensina é que ninguém aprende nada com a História. O mesmo homem que como historiador tiver apontado certas "leis" históricas, que induziu do seu estudo de factos, procederá frequentemente, se for estadista, em contrário do que ele mesmo estabeleceu como historiador. Assediado com a acusação de que, de teórico a prático, se contradisse, alegará a pressão das circunstâncias, introduzindo assim uma excepção ao que declarara ser lei natural, insusceptível portanto de a ela haver excepções.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

CARNAVAL

A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira...


A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa...


Cada momento é um carnaval imenso
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso

De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça...

Automóveis, veículos, (...)
As ruas cheias, (...)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.

Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (...)

Uma pândega esta existência toda...
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda...

E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo...
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem

Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo...

Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles

E o mesmo ar conjuga-nos
Tenho às vezes o tédio de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras...
Gasto inúteis horas inteiras

A descobrir quem sou; e nunca deu
Resultado a pesquisa... Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim

Já estou como antes fora dele. É engano
A gente ter confiança em quem tem ser...
(...)
Olho p'ró tipo como eu que ai vem...
(...)
Como se veste (...) bem
Porque é uma necessidade que ele tem
Sem que ele tenha essa necessidade.

Ah, tudo isto é para dizer apenas
Que não estou bem na vida, e quero ir
Para um lugar mais sossegado, ouvir
Correr os rios e não ter mais penas.

Sim, estou farto do corpo e da alma
Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se...
Cada momento é um corpo no que nasce...
Mas o que importa é que não tenho calma.

Não tenciono escrever outro poema
Tenciono só dizer que me aborreço.
A hora a hora minha vida meço
E acho-a um lamentável estratagema

De Deus para com o bocado de matéria
Que resolveu tomar para meu corpo...
Todo o conteúdo de mim é porco
E de uma chatíssima miséria.

Só é decente ser outra pessoa
Mas isso é porque a gente a vê por fora...
Qualquer coisa em mim parece agora

ÁLVARO DE CAMPOS
( heterónimo de Fernando Pessoa)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

As quatro canções que seguem

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou...

Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são.
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira…
Devo ser todo doente — ideias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra coisa.

Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário...

 Alberto Caeiro
( heterónimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Não estou pensando em nada

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.


Não estou pensando em nada, e que bom!


Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas.
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...


Álvaro de Campos
( heterónimo de Fernando Pessoa )


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Bernardo Soares - Gosto de dizer.


Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. 
Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.



Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.


Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.



Fernando Pessoa /Bernardo Soares - Livro do Desassossego

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Tenho tanto sentimento


Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

sábado, 2 de dezembro de 2017

Rui Oliveira e Ela Vaz-Sino da Minha Aldeia (Fernando Pessoa)

As publicações deste blogue acontecem, muitas vezes, por acaso. Há por aqui encontros inesperados.
Com direito (além da vozes e do arranjo musical) a um belíssimo assobio, este é um  feliz acaso.
Encantada.




Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

sábado, 17 de junho de 2017

Salvador Sobral & Júlio Resende - Regret (Alexander Search- FERNANDO PESSOA)

 Tão bonito....


"Numerosos são os exemplos de afinidade entre as obras que os pré-heterónimos possuíram e os textos que foram criando, um dos mais flagrantes sendo o poema «Regret», assinado por Search, proprietário de The Poetical Works of Lord Byron "
(  vale a pena ler mais em:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/assinaturas3.htm)


REGRET

I would that I were again a child

  And a child you sweet and pure,
That we might be free and wild
In our consciousness obscure;
That we might play fantastic games
 Under trees silent and shady,
That we might have fairy-book names,
I be a lord, you a lady.

And all were a strong ignorance
And a healthy want of thought,
And many a [prank?], many a dance
Our unresting feet had wrought;
And I would act well a clown's part
To your childish laughter winning,
And I would call you my sweetheart
  And the name would have no meaning.

Or sitting close we each other would move
With tales that now gone are sad;
We would have no sex, would feel no love,
Good without fighting the bad.
And a flower would be our life's delight
And a nutshell boat our treasure:
We would lock it in a cupboard at night
As in memory a pleasure.

We would spend hours and days like a wealth
Of goodness too great to cloy,
We would deep enjoy innocence and health
Knowing not we did enjoy...
Ah, what bitterest is is that-alone
Now one feeling in me I trace -
That knowledge of what from us hath gone
 And of what it left in its place.

Alexander Search ( Fernando Pessoa)


sexta-feira, 12 de maio de 2017

HÁ MAIS DE MEIA-HORA


Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo).
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica».
Ao lado direito —
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

ÁLVARO DE CAMPOS ( 1935)
In Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944

quarta-feira, 3 de maio de 2017

No baile em que dançam todos


No baile em que dançam todos

Alguém fica sem dançar.

Melhor é não ir ao baile

Do que estar lá sem lá estar.

FERNANDO PESSOA

quarta-feira, 24 de abril de 2013

De Abril , canções mil..... Há uma música do povo

Por estes dias  publicarei, principalmente, interpretações de canções portuguesas  de que gosto especialmente , cujos autores ou/e letras  foram  marcantes no panorama  musical, político e social  pós 25 de Abril de 1974. Tentarei mostrar que a música  dessa época não se resume às canções de intervenção e que, por outro lado, há hoje em dia quem, nesta área,  recrie, modernize, promova e dignifique magistralmente os conteúdos originais , sem revivalismos e nostalgias que  me parecem estéreis.  Realmente a música e a poesia são linguagens universais, para todos e de todos. As emoções e sensação de bem- estar  que provocam permanecem  ao longo dos tempos e  são independentes de conjunturas polítco-económicas e socais. 


Hoje,  24 de Abril de 2013, começo com " Há uma música do povo" adaptação do poema de Fernando Pessoa que transcrevo na íntegra. A música é de  Mário Pacheco, filho do guitarrista António Pacheco que acompanhou alguns dos maiores fadistas portugueses ( estou a lembrar-me  de Hermínia Silva com o seu célebre  "anda Pacheco!").
Esta  melodia é normalmente cantada como fado, sendo muito conhecida a versão de Mariza. 

 O arranjo e trompete  de João Moreira são belíssimos e a  interpretação de Paula Oliveira, cheia graves e profundidade, arrepia. Recriação em jeito de jazz que envaidece a enorme alma portuguesa.     

*24/4/2019 - o vídeo foi cortado ...resta o solo de trompete de João Moreira.  



Há uma música do povo
Há uma música do povo,

Nem sei dizer se é um fado

Que ouvindo-a há um ritmo novo

No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria

Se desejar fosse ser...

É uma simples melodia

Das que se aprendem a viver...



E ouço-a embalado e sozinho...

É isso mesmo que eu quis ...

Perdi a fé e o caminho...

Quem não fui é que é feliz.



Mas é tão consoladora

A vaga e triste canção ...

Que a minha alma já não chora

Nem eu tenho coração ...



Sou uma emoção estrangeira,

Um erro de sonho ido...

Canto de qualquer maneira

E acabo com um sentido! 


Fernando Pessoa

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso, arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas do hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez já foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos
(heterônimo de Fernando Pessoa)



Declamar um poema não é fácil, mesmo os de Álvaro Campos que são tão expressivos.
Osmar Prado, grande actor brasileiro, interpreta magistralmente o "Poema em Linha Recta" numa cena da popular telenovela "O Clone".  Não encontrei em Portugal ninguém que o fizesse desta forma. Mais: assim se mostra que a cultura é de todos e para todos. Entre nós encontra-se fechada na redoma fria e balofa  da erudição a que só alguns pretendem ter acesso. É pena.      

sábado, 4 de agosto de 2012

Sorriso audível das folhas

 Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?

O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?


Fernando Pessoa