Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de fevereiro de 2019

POEMA DO JORNAL


O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A pena escreve.
A polícia dissolve o meeting.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.


Carlos Drummond de Andrade  (1902-1987)

domingo, 10 de maio de 2015

Aquele bêbado- Carlos Drummond de Andrade

— Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os indicadores. Acrescentou: — Álcool.
O mais ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou um pileque de Segall. Nos fins de semana, embebedava-se de Índia Reclinada, de Celso Antônio.

— Curou-se 100% do vício — comentavam os amigos.

Só ele sabia que andava mais bêbado que um gambá. Morreu de etilismo abstrato, no meio de uma carraspana de pôr do sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras coroas de ex-alcoólatras anônimos.

ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1991.