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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Rusga de Godinhaços

Godinhaços é uma freguesia do concelho Vila Verde.
Um destes dias vou descobrir quem toca assim. Vou, vou.

sábado, 8 de setembro de 2018

Eu hei-de dançar, de dia ao sol, de noite ao luar

  É uma família Minhota, sim, senhores.


" Não podeis ouvir as concertinas e as castanholas, que ficais logo todas excitadas!"
Pois é.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Cantadeiras do Rancho da Casa do concelho de Ponte de Lima em Lisboa - "Joaninha"

  (Tema tradicional da freguesia de Estorãos,  concelho de Ponte de Lima,  Minho, Portugal)





Ó Joana, minha Joaninha,

És pequena mas és jeitosinha,

Mas és jeitosinha, mas és jeitosinha,

Ó Joana, minha Joaninha.



Ó Joana, minha Joaneira,

 És pequena mas és feiticeira,

Mas és feiticeira, mas és feiticeira,

Ó Joana, minha Joaneira.



Ó Joana, minha Joanada,

És pequena mas és estabanada,

 Mas és estabanada, mas és estabanada,

Ó Joana, minha Joanada.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Lenda de Viana

Era uma vez uma pequena povoação nascida na margem direita do rio Lima, junto à foz, quando as águas doces e vagarosas se misturam com o bravio das ondas salgadas. Chamava-se Átrio e tinha, sobranceira, uma montanha densa de arvoredo, onde, no alto, existira a fortificação de um castro habitado por povos sem nome e que, a dada altura, desceram ao litoral, buscando, na pesca, melhor alimento e mais comércio. Era extremamente bela, entre veigas cultivadas, palmos de hortas viçosas, redis, pomares e vinhedos. Mas a sua principal vocação era, sem dúvida, o mar, a pesca.

E, na extensão fina de praia, várias embarcações esperavam as madrugadas para serem lançadas às vagas, com o afa dos remos, o aceno das velas e o espalhar das redes. Pelo entardecer, as companhas regressavam ao Átrio, para a alegria das mulheres e das crianças, com o fundo da embarcação farta de pescado palpitante: a sardinha, o carapau, a faneca, o congro...

Vinham, rio abaixo, muito habitante de outras povoações, para o abastecimento pródigo das suas mesas.

Ora morava no Átrio, na modéstia de um casebre, uma linda rapariga chamada Ana, filha de pescador e desenvolta na venda do peixe, sempre com uma canção nos lábios, ouvida a algum jogral chegado da vizinha Galiza, onde animava os serões dos paços e os terreiros das romarias.

Escutava-lhe, deliciado, estas cantigas de amor e de amigo, um jovem barqueiro que, empunhando a longa vara com que impulsionava o comprido barco de fundo chato, transportava, na correnteza do rio, até ao Átrio, várias vezes por semana, lavradores e mercadores à compra de peixe fresco e saboroso para dar prazer aos rigorosos jejuns. De tanto escutar a voz harmoniosa de Ana e de lhe admirar a graça, o rapaz começou a sentir pela rapariga um amor que ia aumentando dia após dia.

Confessara já aos amigos e companheiros de lida o agrado desse amor nascente. E estes, contentes com o seu contentamento, sorriam quando o moço barqueiro, ao voltar do Átrio, lhes atirava um brado feliz:

- Vi Ana! Vi Ana!

Um dia, porém, não se contentou em vê-la e dirigiu-lhe a palavra, num enleio que lhe corava as faces. A rapariga percebeu, então, o vivo interesse amoroso do rapaz por ela, os olhos dele, brilhantes, sobre o rosto dela, sobre os olhos dela, sobre os cabelos dela...

E o seu coração lisonjeado retribui-lhe esse interesse, retribuiu-lhe esse amor. Não tardou em realizar-se a boda dos dois enamorados.

Durante os festejos, bebendo vinho acre e refrescante gerado nos parreirais da região, os companheiros e amigos do noivo recordaram-lhe o brado entusiástico:

- Vi Ana! Vi Ana!

O dito foi logo adoptado pelos pescadores do Átrio que passaram a repeti-lo quando, vindos dos trabalhos duros da faina, se lhes deparava o vulto acolhedor da montanha, as praias doiradas, as veigas férteis, as águas lentas do rio e a paz dos seus lares:

- Vi Ana! Vi Ana!

Ao conceder o foral à povoação da foz do Lima, em 1258, o rei D. Afonso III, que a visitara tempos antes, extasiando-se com tanta beleza e prosperidade, substituiu-lhe o nome de Átrio pelo de Viana. Por certo, alguém lhe revelara aquele brado de amor. E só amor merece terra tão abençoada!

 António Manuel Couto Viana
 Lendas do Vale do Lima, Ponte de Lima, Valima, Associação de Municípios do Vale do Lima, 2002

  ***** 



domingo, 1 de maio de 2016

O gato remeumeu ( interpretado pelas Cantadeiras do Vale do Neiva) , a minha minha Mãe e eu...

 Também devo à minha Mãe o facto me ter posto a ouvir música, praticamente, desde o dia em que nasci. Foi marcante, moldou muito a minha personalidade, não tenho dúvida.

 Fui educada no
 interior do Minho.  Vivíamos em Freixo, uma terra com dois largos : o da Igreja (muito perto estava a escola primária) e o da Feira, à volta do qual havia uma "Casa do Povo", casas como a nossa, uma farmácia, duas mercearias, alguns (nessa altura talvez dois ), cafés, talho, loja de ferragens, relojoaria e pouco mais... Aí havia feira de quinze em quinze dias e paravam as "carreiras" que mais tarde nos levariam, aos que continuaram a estudar,  para a escola em Ponte de Lima e liceu em Viana do Castelo (nessa altura já só ia a casa  uma vez por semana.)
De vez em quando passava por lá a carrinha da Biblioteca Itenerante ( grande Gulbenkian!)
Lembro-me de não haver luz eléctrica na aldeia.

O rádio ficava todo o dia ligado ao pé do berço. Sempre houve música por todo o lado, até na casa de banho.
 O meu Pai era mais para os livros. Sendo "duro" de ouvido ,dizia que  tocava campainha muito bem... No entanto era engenhocas , gostava de máquinas e também deste ambiente, que era alegre, lúdico e pedagógico. Colaborava, arranjando boas e modernas "aparelhagens", mandando vir colecções musicais pelo correio.... Sem ele e o seu engenho nada teria sido possível.
Mas é à minha Mãe e à sua sensibilidade musical que devo (e os meus irmãos também) não só o gosto, mas também a curiosidade por variadíssimos tipos de música e sonoridades.

Vêm-me à memória as viagens de carro para a praia em que, muito pequenos, todos cantávamos e só eu desafinava... A minha Mãe fazia-me tomar consciência disso, deixando-me fula, é claro, mas também me ensinava e emendava. Água mole em pedra dura "taratara" , um dia deixei de estragar o coro da ida à praia ( ó que bonita!), ou o "coiro" passou a coro....

 E não me esqueço das cassettes que mais tarde lhe gravava para o carro, depois de horas, dias, de selecção cuidadosa . Durante anos houve essa " brincadeira" entre nós...

Uma das canções que cantávamos ,embora de forma ligeiramente diferente e pior com certeza mas, pelo menos, a duas vozes ( depois... já não sei se era a Mãe quem fazia o "rabo"), era esta :






LCB

terça-feira, 22 de março de 2016

A poesia popular do Minho

"Os lenços de namorados pelo que neles se escrevia bordando, pelo seu simbolismo e significado sentimental apresentam-se como a mais genuína forma de poesia popular utilizada pelas raparigas do Minho em idade de casar."
 Hoje é o dia mundial da poesia
Eu sei que é preciso muita imaginação, mas faz de conta que o que se vê em baixo é um desses lenços....
LCB

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Lenda do Rio Lima

Era uma vez um rio. Nascera, sem pressa, entre espessas penhas, numa serra galega, e, sem pressa, foi descendo um vale ameno, bordado de salgueiros e veigas viridentes, avistado, débil pela distância, dos altos montes revestidos de pinheirais, e onde, nos cimos, se abrigavam o refúgio e a agressividade de velhos castros.
Era azul e liso. Não tinha nome, ainda.
O povo que lhe usava as águas, para a rega, a pesca e a sede, era rude, selvagem, mal sabendo talhar na pedra o machado da lenha; a faca lascada para dilacerar a rês, destinada ao fulgor das brasas; a ponta de lança para a defesa e o ataque contra a violência que lhe roubava o gado e lhe raptava a mulher.
Pela calma do entardecer, a tingir de vermelho os céus do mar próximo, o pastor, recoberto de peles de fera, conduzia os rebanhos até às areias finas das margens, a beberem frescura na limpidez do rio, longa, longamente...
Mas esta paz de paraíso não tardou a ser perturbada pelo passo duro e cadenciado do soldado estranho.
A Roma imperial enviara as suas legiões aos campos agrestes da Ibéria, vencendo batalhas, edificando estradas lajeadas, as pontes, os aquedutos, as muralhas guerreiras, os templos para os deuses, os anfiteatros e as arenas para os prazeres da arte e do desporto. Elas invadiam, implacáveis, o bucolismo da paisagem doce, empunhando a agudeza da lança e o escudo de coiro lavrado, entre o arruído dos pesados carroções e o tropear febril dos cavalos.
E, um dia, eis que o arreganho destas legiões chega junto à margem sul do rio de que vos falo, com seus pendões rubros, constelados de águias, sacudidos por uma brisa mansa. E estaca, rendido, deslumbrado!
No arrebatamento da visão, toda a soldadesca excitada supõe estar diante daquele rio Lethes, o Rio do Esquecimento, um rio sem par de que lhe falavam as lendas e as narrativas do seu país.
E do Esquecimento, porquê?
Porque se dizia que quem ousasse atravessá-lo, enfeitiçado pela sua beleza, logo esqueceria a pátria, a família, o próprio nome.
Tomado de pavor pelos avisos desta condenação, todo o exército se recusou a mergulhar, naquelas águas encantadas, a poeira das sandálias, obrigadas a calcar o vau
da passagem que o levaria, sem perigo, à margem oposta.
Em vão os comandantes lhe davam ordem de avançar. Em vão o chefe supremo, Décio Júnio Bruto, lhe ameaçou a desobediência com a prisão e a morte.
Ninguém se movia dali, paralisado pela emoção e pelo medo. Mas Décio Júnio Bruto teve uma decisão feliz. Apeando-se do seu ginete, atravessou, lento, as águas feiticeiras, com o escudo a proteger-lhe a cabeça, a curta espada desembainhada na firmeza da mão.
E, mal atingiu o areal da margem direita, vencendo o rumorejar do arvoredo, o gorjeio mavioso dos rouxinóis, começou a bradar pelos seus homens, hirtos, perfilados à sua frente, como estátuas estáticas, proferindo, de cada um deles, o nome exacto, sem revelar esforço de memória.
Só desta forma convenceu os seus soldados que, afinal, o rio que lhes corria aos pés não era o Lethes do esquecimento, apesar da sua beleza, apesar do seu fascínio.
Então, todo o exército atravessou, sem hesitar, as águas claras e brandas, e seguiu para novas paisagens, novos montes e vales, novos rios, embora nenhum deles tão deslumbrante.
E aquele rio que, por um momento de paixão e de temor, fora baptizado de Lethes, continuou a correr, sem pressa, até ao desenlace da foz. O rio tem, hoje, o nome de Lima.
E, tal como outrora, ei-lo que fascina, pela sua beleza, quem dele se abeira, lhe escuta o leve fluir, já ladeado, agora, pela riqueza e nobreza das igrejas e santuários milagreiros; pelos escuros solares armoriados e a brancura alegre dos casais; pelo bulício de antigas povoações com suas elegantes pontes arqueadas sobre barcos pesqueiros; e, por todo o horizonte, as torres, os pelourinhos, as cruzes...
Rio do Esquecimento? 

Não.
Rio da Lembrança.
Lembrança viva destas terras amoráveis, por onde desliza e que parece beijar.


António Manuel Couto Viana
Lendas do Vale do Lima
Ilustração de  António Vaz Pereira



 
,
Ponte de Lima, Valima, Associação de Municípios do Vale do Lima, 2002

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Delfim Jr e Danilo di Paolonicola, Campeão do Mundo de Concertina -

Delfim Júnior ( à direita) e Danilo di Paolonicola ,um Italiano  que é, pela sexta vez, o Campeão do Mundo de Concertina, juntaram-se e t(r)ocaram música. Neste espectáculo ( que só tem um defeito : na minha opinião a bateria é não só  perfeitamente escusada,  mas até prejudicial),  o  Italiano acompanha o Português na "Rosinha",  tema tradicional  minhoto, que desconhecia.  "Birou"!
  


 Pois é... filho de peixe sabe nadar.


 E do Pai Delfim muito há a mostar . Merece página especial, um dos melhores cantadores e tocadores de concertina do Alto Minho, Arcos de Valdevez. Lá chegarei.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Povo Que Ainda Canta - Alto Minho

 É de muito  valor o programa, de Tiago Pereira, que passa na RTP2.
  Obviamente o 14º episódio tem, para mim, um sabor especial. 


sábado, 13 de junho de 2015

Quem diria!


 Eu , do Minho natural, encontrei esta imagem, publicada  na revista Sábado de hoje,  que relata sucintamente a primeira edição  das Marchas Populares de Santo António de Lisboa.   

 Aproveito  para mostrar  um  tema tradcional da minha terra onde,  além da melodia e do intrumental, destaco as quadras que são cantadas, a afinação( aconselho o uso de auscultadores) e as imagens de alguns dos trajes regionais minhotos. Ah! e a alegria é tão óbvia, que só não sente quem não quer. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Senhora da Boa Morte pela Escola de Cordas da Correlhã

 Sim, foi o Cante Alentejano que foi declarado património de Humanidade. Fico contente, claro, é  bom para Portugal, aprendi imenso nestes últimos dias.
No Minho e noutras regiões de Portugal  há cantares,  tocares, dançares  fabulosos , alguns dos quais  já tenho publicado nestas bandas.... o que não há , parece,  é interesse real das  instituições em promove-los. Que pena!
Aqui fica mais uma amostra.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Danças e cantaes do Minho- Cantadeiras do Vale do Neiva

  Nem só de concertinas, chulas e viras é feito o folclore  minhoto. Nesta região canta-se muito e bem , de forma muito própria. Vulgarmente desvalorizados,  como se tratassem de  gritos e vozes esganiçadas, os cantares do Minho são afinadíssimos nos seus tons agudos e ricos nas palavras. Pena é que não sejam mais divulgados ( ao contrário do que acontece  relativamente ao que se canta noutras regiões, nomeadamente o Alentejo) e que, pela  internet fora, pululem vídeos de registo de som e imagem de péssima qualidade. É uma coisa que me custa a compreender . 
Por isso,  hoje publico um belíssimo  filme realizado há muitos anos .
 Nas palavras de José  Luís da Rocha Paris  a quem agradeço esta oportunidade " Este vídeo (...)foi filmado em Vila Praia de Ancora há muitos anos pelo menos 15 anos. Mesmo 17 anos. Por um lado foi Jean-Pierre Bertrand quem o filmou e por outro lado eu próprio. Infelizmente nessa altura a minha câmera que era muito boa não chegava para dar toda a luz a essas cantadeiras do Neiva"
 




Mas  as Cantadeiras do Vale do Neiva existem ainda hoje e, na minha opinião, são um dos melhores grupos de cantares do Minho da actualidade.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Desafios ( trailer)

Excerto do  documentário de "Ao NORTE". Até agora, foi só o que encontrei. Bem  que gostava de ver o filme completo! 


Desafios - Trailer from Ao Norte on Vimeo.

SINOPSE
A tradição das cantigas ao desafio tem uma grande importância no Alto Minho. São uma forma de crítica em verso, em que o cantador ataca o seu par até um deles não ter resposta e se dar por vencido. Há festas, romarias e convívios que não dispensam a concertina e os cantadores.Desafios traz-nos o mundo das cantigas ao desafio através da intervenção de alguns dos mais conhecidos cantadores do Alto Minho, onde se destacam Delfim e Carminda, de Arcos de Valdevez, José Cachadinha, de Ponte de Lima, Armando Marinho, de Ponte da Barca e Augusto Canário, de Viana do Castelo.

FICHA TÉCNICA
realização: Carlos Eduardo Viana;
produção: Associação AO NORTE, para o Museu do Traje de Viana do Castelo;
produção executiva: Rui Ramos; direção financeira: António Passos;
imagem: Nuno Cristino Ribeiro com Joaquim Gomes, João Gomes, Nuno Santiago e Eurico Barros;
som: Alexandre Martins com André Cardoso e Carlos Portela:
montagem: António Soares; pós-produção áudio: Miguel Arieira;
correção de cor: Carlos Filipe Sousa;
intervenientes: Armando Marinho (cantador), Delfim Amorim (cantador), Artur Fernandes (músico), José Cachadinha (cantador), Arnaldo Saraiva (professor e escritor), Abílio Sá Lima (radialista), Augusto Canário (cantador) e Carminda Amorim (cantadeira); outros cantadores: Irene Passos, de Vila do Conde, Irene, de Gaia, José Manuel, do Vale, Maria Celeste, de Ponte da Barca, Rosa Maria, de Ponte da Barca, Carlos Ribeiro, de Guimarães, Naty, de Póvoa de Lanhoso e Soalheira, de Guimarães.

(HD, 83’, 2013)

domingo, 28 de outubro de 2012

Excerto do documentário "Alto do Minho" de Miguel Filgueiras

Alto do Minho, mais do que um documentário é uma impressão (...) mais do que um filme é um retrato que se mexe (Miguel Filgueiras).


Alto do Minho | Free view segment from MIGUELFILGUEIRAS on Vimeo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Páscoa em Vitorino das Donas


                                  
                          Nota: clique em "full screen" para ver a reportagem com qualidade

Vitorino das Donas é uma aldeia do Alto Minho,norte de Portugal.

Reportagem de Alfredo Leite,publicada  em www.vimeo e também em 2009 no JN (http://www.jn.pt/)  
Fotografia  Alfredo Leite
Edição   Joana Bourgard



"Compasso encantado em Vitorino das Donas

Ponte de Lima cumpre uma tradição pascal que se perde nos tempos. Durante dois dias o compasso e uma orquestra percorrem as casas da freguesia e, com eles, todos os seus moradores

Publicado em 2009-04-19 no JN

 Alfredo Leite

Um tapete de pétalas aqui, um rasto de funcho mais adiante. São sinais repetidos ano após ano e que conduzem a portas entreabertas, onde as famílias aguardam a chegada da cruz.

Nas cozinhas, há mesas abastadas prontas a matar a fome - e, sobretudo, a sede - dos sete homens que compõem o compasso em Vitorino das Donas, Ponte de Lima. Os sete, mais as três dezenas de pessoas da orquestra que segue a cruz e uma freguesia em peso, atrás da música, visitam, uma a uma, as casas da aldeia. É domingo. A azáfama começa bem cedo. O pequeno-almoço toma-se ainda de madrugada, muito antes da missa, às 7.00 horas, na granítica igreja de onde o compasso pascal sairá à rua, mal estalem os foguetes. O tilintar da sineta não mais deixará de se ouvir pelas ruas de Vitorino das Donas, numa melodia minimal que há-de durar até ao cair da noite de segunda-feira. A banda dá os primeiros acordes e o compasso assiste estático. Nas ruas, ainda desertas, homens madrugadores de fato escuro esperam nas esquinas. Fala-se do que já se sabe: o trajecto do compasso, o ornamento da cesta, a roupa do vizinho. À medida que as horas avançam vão-se juntando mais pessoas. Há mulheres e crianças vestidas com as melhores roupas domingueiras.

O compasso prossegue a bom ritmo. O cansaço não esbate os sorrisos e às gentes da freguesia começam agora a juntar-se os forasteiros, talvez atraídos pelas televisões que este ano falaram da Páscoa nas "Donas". Escutam-se comentários. "Nunca tinha visto homens de lenço na cabeça", dizem, numa alusão aos "cachenés" típicos das vianesas. A noite cai finalmente. A visita às seis últimas casas pode durar duas horas. Chega depois o clamor. Pela estrada escura, no caminho de regresso à igreja, o compasso é seguido por centenas de pessoas num cântico arrastado que rompe o silêncio profundo do vale do Lima." *

 * Este texto foi publicado no JN em  19-4-2009