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terça-feira, 25 de abril de 2023

AVENIDA DA LIBERDADE


Subamos e desçamos a Avenida,

enquanto esperamos por uma outra

(ou pela outra) vida.


Alexandre O’Neill

segunda-feira, 21 de março de 2022

A Bicicleta

 O meu marido

saiu de casa no dia

25 de Janeiro. 

Levava uma bicicleta

a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,

vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,

blusão cinzento, tipo militar, e calçava

botas de borracha e tinha chapéu cinzento

e levava na bicicleta um saco com uma manta

e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo

e uma panela de esmalte azul.

Como não tive mais notícias, espero o pior.


Alexandre O’Neill


in:As

horas já de números vestidas(1981)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Alexandre O’ Neill / Um Conto de Natal - Exercícios de auto-apoucamento ( com vista ao próximo Natal)

(  O culto da ironia.
Repetido, mas vale a pena reler. )

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:

- Ó Quinhas anda ver!

Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:

- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!

- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.

Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:

- Lèrinho, Lèrinho!

Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.

Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.

- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.

E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…

- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.

Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?

Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:

- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.



(Coord. de Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

sábado, 17 de dezembro de 2016

Miguel Guilherme diz "Pois" de Alexandre O’ Neill e "A Família" de Mário-Henrique Leiria ( homenagem ao actor António Feio)

Miguel Guilherme  é um actor brilhante e  um fenómeno raro em Portugal  da arte de bem dizer poesia . Não a recita apenas, interpreta-a, dá-lhe corpo.
Este é um dos poucos vídeos que na internet demonstram o que acabo de dizer.





POIS


O respeitoso membro de azevedo e silva

nunca perpenetrou nas intenções de elisa

que eram as melhores. Assim tudo ficou

em balbúrdias de língua cabriolas de mão.



Assim tudo ficou até que não.



Azevedo e silva ao volante do mini

vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois

e pensa pensa com os seus travões

Ah cabra eram tão puras as minhas intenções



E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.


Alexandre O'Neill   ( 1972)


A FAMÍLIA

Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão


vamos para casa
disse o esturjão.

Mário-Henrique Leiria