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quarta-feira, 3 de abril de 2024

Redacções da Guidinha - Luís de Sttau Monteiro-Redacções da Guidinha - O Cavalo


O cavalo é um bicho que tem quatro patas e carroça mas há cavalos que não têm carroça porque fazem corridas e ganham mas quem leva as taças são uns homens pequeninos que andam em cima deles e há os cavalos das touradas e o senhor Francisco que o meu Pai diz que é o maior cavalo que ele alguma vez viu e os cavalos dos cowboys que conhecem os assobios dos donos e salvam-nos quando os índios os estão a matar e o D. Afonso Henriques tinha um cavalo porque os reis andavam a cavalo só os presidentes é que não sabem montar e nas batalhas o rei D. Afonso Henriques ia todo vestido de rei que é um fato de lata e entrava à espadeirada aos inimigos que fugiam dele não sei porquê e o cavalo também é bom para bifes mas a minha Mãe diz sempre que são de vaca porque se não a Vovó não come lá porquê não sei porque come fressura e isso é que eu não comia nem que lhe chamassem lombo de vitela o cavalo tem pelo curto e faz uns pupus que parecem pastéis de bacalhau mas não são e por isso é preciso tomar cuidado porque se uma pessoa se engana pode ficar atrapalhada uma coisa que eu sei é que há uns cavalos que têm o rabo penteado aos quadradinhos esses são da Guarda Republicana que é uma guarda que quando os cavalos morrem corta-lhes os rabos para usar nos chapéus também sei que os cavalos não põem ovos o que é pena porque se pusessem um ovo estrelado ele dava para uma família inteira mas há nos cafés uma coisa que se chama bife com um ovo a cavalo eu sei porque o meu Pai levou-me a comer num café e tinha muito molho e muitas batatas o que tinha era pouco bife os cavalos são mamíferos porque mamam mas não sei onde já espreitei e não as vi se calhar ficam debaixo do selim outras coisas que os cavalos têm é umas palas do lado dos olhos para não verem para o lado se as pessoas também tivessem não viam as montras e as coisas não se vendiam cada vez há menos cavalos e é pena porque eu gosto de os ver fazer pupus como pastéis de bacalhau coisas que os elétricos não fazem eu não sei porque é que me mandaram fazer esta redação de cavalos são lá coisas do diretor da escola que se chama Pires e tem manias mas já está feita só falta um parágrafo para encher o
espaço todo
cá está ele
e mais um
e outro
e mais outro
e acabou-se





in Luís de Sttau Monteiro(1926-1993) , Redacções da Guidinha

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

FERNANDO PESSOA- Livro do Desassossego - Máximas


- A nossa personalidade deve ser indevassável, mesmo por nós próprios: daí o nosso dever de sonharmos sempre, e incluirmo-nos nos nossos sonhos, para que nos não seja possível ter opiniões a nosso respeito.
E especialmente devemos evitar a invasão da nossa personalidade pelos outros. Todo o interesse alheio por nós é uma indelicadeza ímpar. O que desloca a vulgar saudação - como está?- de ser uma indesculpável grosseria é o ser ela em geral absolutamente oca e insincera.



sábado, 17 de junho de 2023

ANTÓNIO LOBO ANTUNES - Básicopraticamente ( 1975)

 

Há pessoas a quem falta a quarta classe para acabarem o curso e há por aí uma universidade privada que compreendeu isto na perfeição. Saber mudar o pneu de um automóvel é o bastante para ser engenheiro mecânico

Lembro-me de um primo meu, pequeno, dizer

- Se a mãe sesse o pai puzia gravata

lembro-me da Isabel, quando a levei a uma exposição de pintura e lhe perguntei o que achava, me responder

- É um bocado aborrecente

lembro-me do Pedro, zangado com o João, bater à porta do quarto do banho a fazer queixa, do pai a exclamar

- Ah

e do Pedro para o João, vingado

- Estás a ver, o pai disse Ah

e acho que se fossemos mais assim a nossa vida melhorava.

Muito mais do que escutar um ministro referir-se às "ciclópicas tarefas que nos pendem sobre os ombros", e eu a ver as ciclópicas tarefas a escorregarem pelas mangas abaixo, ou do professor de Obstetrícia que declarava

- O que caracteriza esta doença é ser caracterizada pelas seguintes características.

Se dependesse de mim puzia o meu primo a dar aulas, arranjava um ministro menos aborrecente e escolhia um professor de Obstetrícia capaz de resumir a lição num

- Ah eloquente.

Lembro-me de um cabo, em Angola, que respondeu

- Básicopraticamente

quando lhe perguntei se ele achava que tinha razão, e espanta-me que os políticos não respondam isso ao interrogarem-nos se pensam que as suas opções são correctas, e as eleições não sejam marcadas para o dia trinta e dois que era a data em que um sipaio queria casar-se. Básicopraticamente tinha razão: que dia existe melhor que o trinta e dois para uma cerimónia dessas? O que não se pouparia no médico se tomassem todas as manhãs uma aspirina, como o meu amigo senhor Vicente que, ao interessar-me pelas vantagens de tanta pastilha, me esclareceu, firme:

- Pelo sim pelo não

o mesmo que me apareceu com uma coceira qualquer e que, ao comentar-lhe que devia ser chato estar sempre a torturar a pele com as unhas me informou

- É chato na medida em que se torna aborrecido

coisa em que francamente nunca tinha pensado. É que, de facto as situações chatas são-no na medida em que se tornam aborrecidas e a profundidade desta frase não me abandonou mais. Tanta agudeza expressa de um modo aparentemente tão simples basta para elevar um homem às alturas do génio. Ainda por cima pode virar-se a coisa ao contrário e afirmar que o aborrecido é aborrecido na medida em que se torna chato, o que nos faz voltar à crítica de pintura da Isabel. Mais cedo ou mais tarde os grandes espíritos acabam por encontrar-se na opinião de uma criança de cinco anos. E aborrecente possui uma perfeição semântica que deixa o aborrecido a léguas. É este pequeno toque de génio que faltou ao senhor Vicente para se tornar um Kant.


sábado, 4 de março de 2023

Bruno Nogueira - Literatura por medida ( Revista Sábado, 2 de Março de 2013)


 



Bruno Nogueira

Humorista



02 de março


Literatura por medida

O autor está morto, pegaram no livro dele e alteraram frases e palavras de maneira a que o leitor não se sinta ofendido. Vivemos uma época em que para não ofender os leitores vivos, manipula-se a escrita dos autores mortos.

ESTÁ A ACONTECER um pouco por todo o lado, mas sobretudo em livros. E até que enfim que está a acontecer, porque assim o mundo fica logo mais justo. Eu pelo menos sinto isso, quando saio à rua. A editora britânica do escritor Roald Dahl (autor de Matilda, Charlie e a Fábrica de Chocolate, etc.) terá contratado uma equipa para analisar as obras do autor, e sugerir alterações. Tudo para que os livros de Dahl “continuem a ser apreciados por todos nos dias de hoje”. Logo aqui, um erro. Devia ser: “Para que continuem a ser apreciados por todos os panhonhas nos dias de hoje.” Assim sendo, pegaram nesses livros e alteraram algumas passagens. Porquê? Porque há pessoas a quem fazem dói-dói determinadas palavras. E qual é a solução? Temos aqui vários caminhos, e vejam se conseguem adivinhar o mais sensato: Hipótese A, o leitor escolhe não ler porque não aprecia a linguagem contida no livro. Hipótese B, o leitor lê e entende que uma obra de ficção representa isso mesmo (uma obra de ficção), e contextualiza na época em que foi escrito; ou hipótese C, o leitor amua porque há no livro palavras que ele sente que não deve ler, e a editora altera para que ele nunca mais tenha de passar por tamanha afronta. Se está alcoolizado e respondeu a hipótese C, acertou.

Foram alteradas centenas de palavras. Por exemplo, saiu a palavra “gordo” para entrar “enorme”. A palavra “feio” também foi abolida. Numa outra obra, uma personagem que é descrita como “terrivelmente gorda e terrivelmente flácida” passa agora a ser “bruta” e que “merece ser esmagada pela fruta”. Os Oompa Loompas do Charlie e a Fábrica de Chocolate deixam de ser “pequenos homens” para serem “pequenas pessoas”. E noutra obra os “homens-nuvem” passam a ser “pessoas-nuvem”. Isto faz com que Roald Dahl passe a ser woke, mesmo sendo um esqueleto. Trocar palavras de obras quando não gostamos delas ajuda muito. Já fiz o mesmo com “IVA”, agora só tenho de ir a tribunal explicar que aquelas iniciais me deixam


Também é curioso que isto seja uma questão que incomoda sobretudo os autores, porque os principais lesados nestas mantas de retalhos são os leitores, que ficam privados de uma linguagem que corresponde ao escritor que estão a ler, para passarem a ser brindados com colagens de várias palavras que o escritor nunca escreveu em vida (nem na morte, já agora), mas que foram escritas por uma equipa que sente que era assim que o autor deveria escrever nos tempos actuais. Acontece que o autor não escreveu nos tempos actuais, o que faz com que não consiga ter uma linguagem do futuro, uma vez que escreveu no passado. Pormenores. Não sei se consigo passar a gravidade da questão sem me repetir: o autor está morto, pegaram no livro dele e alteraram frases e palavras de maneira a que o leitor não se sinta ofendido. Também se soube que os livros de 007 de Ian Fleming vão sofrer alterações para que não tenham expressões consideradas racistas ou ofensivas. Vivemos uma época em que para não ofender os leitores vivos, manipula-se a escrita dos autores mortos. É possível que funcione, na medida em que as pessoas vivas fazem-se ouvir com mais intensidade do que as pessoas mortas. Se eliminarmos palavras como “gordo” e “feio” dos livros, deixa de haver gordos e feios na vida real, o que é um descanso para a vista. Também deixa de haver racistas. Os problemas do mundo ficam todos resolvidos com o Microsoft Word.


E Deus nos livre que um leitor leia uma coisa que o incomoda. Na verdade, Deus nos livre que uma pessoa seja confrontada com um filme, uma série, uma pintura, um livro, ou qualquer coisa que não encaixe perfeitamente nos parâmetros de gosto daquela pessoa. Correu sempre tão bem quando alteraram frases de livros, e proibiram a venda de outros, que não estou a ver que desta vez vá correr pior. São sempre sinais de uma sociedade em evolução: achar que as novas gerações não podem ter acesso à forma como as outras gerações escreviam. Nesse caso, para que serve o passado, seja ele bom ou terrível? Como é que se pode evoluir, sem se saber de onde se veio? Enfim, perguntas que deixo aqui hoje, mas que daqui a 20 anos alguém vai alterar para “A pessoa Bruno gostava muito de nuvens e de papoilas”.


Antigamente a isso chamava-se mimo, hoje em dia é progresso. Quando alguém começava a fazer birra porque um amigo lhe tinha dito uma palavra feia, o que se dizia era: “Respondes à altura e defendes-te, ou então viras costas e vais-te embora.” O que se ensina hoje é: “Se alguém disser uma palavra feia que tu não queres ouvir, vais até à directora da escola e depois tratamos de mandar o menino para uma terra muito longe daqui, e nunca mais vais ter de ouvir falar dele.”


Entretanto, após protestos de várias pessoas (entre elas o escritor Salman Rushdie), a editora veio dizer que vai manter a versão original para quem quiser, mas que vai também editar esta versão revista, para o público mais sensível. Não será mais fácil o público mais sensível procurar obras mais sensíveis? Eu sei, faço muitas perguntas.


Estamos a blindar o mundo para que as pessoas só vejam e ouçam o que não lhes provoca o mínimo beliscão. A arrogância de achar que vão passar pela vida só a ouvir o que querem tem tudo para correr bem, porque está provado cientificamente que o que ofende uma pessoa, é exactamente o mesmo que ofende a que está ao lado, por isso o assunto vai-se resolver com facilidade e rápido consenso.


Palavra de gordo. 


Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico


sábado, 2 de julho de 2022

O Macaco nas Termas - Adília Lopes

 

Era uma vez um macaco que era uma espécie de pega porque roubava coisas e que era uma espécie de cuco porque punha as coisas roubadas na casa dos outros e que era uma espécie de Cupido porque forjava enredos amorosos. E era uma vez umas termas cheias de velhos muito velhos.

Assim o macaco roubou umas fraldas cheias de chichi a uma velha e foi escondê-las no quarto de uma velha sem uma perna e sem outras coisas. Espalhou-se o boato de que os velhos tinham um caso e de que tinham tido uma aventura.

O macaco fazia isto com toda a gente, sem deixar ninguém de fora, por muito estropiado e desajeitado que estivesse.

Assim o macaco encarregou-se da animação cultural das termas pois não há animação cultural sem animação amorosa.

E os velhos andavam radiantes, pois se não tinham o proveito tinham a fama.

(In: Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2000, p. 297)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Alexandre O’ Neill / Um Conto de Natal - Exercícios de auto-apoucamento ( com vista ao próximo Natal)

(  O culto da ironia.
Repetido, mas vale a pena reler. )

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:

- Ó Quinhas anda ver!

Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:

- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!

- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.

Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:

- Lèrinho, Lèrinho!

Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.

Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.

- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.

E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…

- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.

Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?

Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:

- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.



(Coord. de Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Fernando Pessoa - Livro do Desassosego ( excerto)


Disse Bernard Shaw que a única coisa que a História nos ensina é que a História nada nos ensina. Não é bem assim: aqui, como muitas outras vezes, Shaw sacrifica a frase à frase. O que verdadeiramente a História nos ensina é que ninguém aprende nada com a História. O mesmo homem que como historiador tiver apontado certas "leis" históricas, que induziu do seu estudo de factos, procederá frequentemente, se for estadista, em contrário do que ele mesmo estabeleceu como historiador. Assediado com a acusação de que, de teórico a prático, se contradisse, alegará a pressão das circunstâncias, introduzindo assim uma excepção ao que declarara ser lei natural, insusceptível portanto de a ela haver excepções.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Eça de Queirós em O Conde d'Abranhos:


“(…) os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!

Tomemos um exemplo: o eleitor que não quer votar com o Governo. Ei-lo, aí, junto da urna da oposição, com o seu voto hostil na mão, inchado do seu direito. Se, para o obrigar a votar com o Governo o empurrarem às coronhadas e às cacetadas, o homem volta-se, puxa de uma pistola – e aí temos a guerra civil. Para que esta brutalidade obsoleta? Não o espanquem, mas, pelo contrário, acompanhem-no ao café ou à taberna, conforme estejamos no campo ou na cidade, paguem-lhe bebidas generosamente, perguntem-lhe pelos pequerruchos, metam-lhe uma placa de cinco tostões na mão e levem-no pelo braço, de cigarro na boca, trauteando o Hino, até junto da urna do Governo, vaso do Poder, taça da Felicidade! Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um País, com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade.”

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

João de Melo - Gente Feliz com Lágrimas

"O país ensinou-nos a ser necrófilos por tradição: a venerar os seus mortos capitais. Educou-nos nessa religião elegante de curvar a espinha, todos muito benzidos e perfilados perante os que tiveram apenas um mérito: mudaram de mundo. E passados que sejam para onde a morte é escura e infinita, assumem a virtude suprema: deixam de perturbar a sombra dos vivos."
 

( lido  em Capítulo Segundo - Nuno Miguel)

domingo, 30 de junho de 2019

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um



Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.



José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis (2008)

sábado, 1 de junho de 2019

STONER - JONH WILLIAMS


 Jonh Wiliams , o autor do romance, disse  a propósito de Stoner:



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Os trabalhadores unidos vão ser todos despedidos - RICARDO ADOLFO




Os trabalhadores unidos vão ser todos despedidos.


O homem do sindicato voltou com a conversa dos direitos. Foi decidido em plenário ignorarmos a doutora e continuarmos a ir trabalhar todos os dias. Sim, agora as reuniões passaram a plenários. A gente pequena está eufórica. Sentem-se a melhor classe operária do mundo. Coitados. Até lhes começamos a achar graça. Sentados, muito direitos, muito atentos, a tentar processar, com os dois neuroniozinhos que Deus lhes deu, os palavrões dos direito e da luta que o homem do sindicato e os amigos que apareceram para animar a revolta vão gritando dos fundos do refeitório. Pela primeira vez alguém lhes dirige a palavra e não é para lhes dar uma piçada. Vivem momentos históricos. Os trabalhadores unidos vão ser todos despedidos.

(…) Achamos curioso estarmos em greve se estamos todos despedidos. Não sabíamos que era possível estarmos no olho da rua e ao mesmo tempo protestarmos pela falta de condições de trabalho que não existe. É que nem estamos a protestar contra os despedimentos, estamos ainda na fase de reclamações contra os salários em atraso. (…) No último plenário ainda confirmámos com o grande líder se não era preciso termos trabalho para reclamar a falta de pagamentos. Disse-nos que eram detalhes técnicos irrelevantes e o que o que interessava eram os direitos dos trabalhadores.

mas quem não tem trabalho tem direitos sobre o trabalho que não tem?

os trabalhadores têm sempre direitos

E quando não têm trabalho também são trabalhadores?

São, pois, são trabalhadores oprimidos.

oprimidos por quem?

por quem os despediu

e isso não faz deles desempregados?

um trabalhador de verdade nunca está desempregado

e quando está sem trabalho?

está a ser injustiçado pela classe patronal, que só pensa no lucro, mas nem por isso deixa de ser quem é, quem nasce trabalhador morre trabalhador

é como se fosse uma deficiência, atão.



Em

Maria dos Canos Serrados - Ricardo Adolfo



sábado, 26 de janeiro de 2019

Mistérios do Rio Lima ....


(...)
Leitor ousado que te ris da crendice popular, ouve-me por piedade. Se alguma vez fores à beira Lima, não faças juras fataes sobre as aguas correntes. Naquelle rio escondem-se terríveis segredos, e lá anda pelo norte, espalhado em certos olhares, esse algo subtil que não provem do ceo.

Por piedade, sobre as aguas correntes não faças juras fataes!

Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898

domingo, 15 de abril de 2018

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic(1973)



Então chegaram a minha casa e disseram-me:

– Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isto que faz é uma miséria.

– Coisas compridas como?

– Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.

– Não, isso não sou capaz.

– Então você não é um escritor.

– Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa? – aí é que me ia encanzinando.

– Não é ofensa, desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?

– Olhe, o mais comprido que tenho é isto. E já foi difícil. Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?

quinta-feira, 22 de março de 2018

sábado, 10 de março de 2018

Esplanada


Naquele tempo falavas muito de perfeição,


da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,




agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.




O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.




Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Gregory Colbert, Ashes and Snow

“Letter 7

In the beginning of time, the skies were filled with flying elephants. Too heavy for their wings, they sometimes crashed through the trees and frightened other animals.

All the flying grey elephants migrated to the source of the Ganges. They agreed to renounce their wings and settle on the earth. When they molted millions of wings fell to the earth, the snow covered them, and the Himalayas were born.

The blue elephants landed in the sea and their wings became fins. They are the whales, the trunkless elephants of the oceans. Their cousins are the manatees, the trunkless elephants of the rivers.

The chameleon elephants kept their wings but agreed never to land on earth. They change colors of their feathers every day. Today they are azure, and when it rains they are the color of pearls.

When they go to sleep, the chameleon elephants always lie down in the same place in the sky and dream with one eye open. The stars you see at night are the unblinking eyes of sleeping elephants, who sleep with one eye open to best keep watch over us.” 

Gregory Colbert
 Ashes and Snow : A Novel in Letters

and

 Ashes and Snow -book 1- Photography Nomadic 





Ashes and Snow by Gregory Colbert from Gregory Colbert on Vimeo.


Gregory Colbert’s Ashes and Snow feature film captures extraordinary moments of contact between people and animals as seen through the lens of the artist’s camera on more than thirty expeditions to some of the earth's most remote places. Written, directed, produced, and filmed by Gregory Colbert, it is a poetic field study that depicts the world not as it is, but as it might be—a world in which the natural and artificial boundaries separating humans from other species do not exist. The viewing experience is one of wonder and contemplation, serenity, and hope.

Edited by two-time Oscar-winner Pietro Scalia; narrated by actors Laurence Fishburne (English), Enrique Roche (Spanish), and Ken Watanabe (Japanese). Musical collaborators include Michael Brook, David Darling, Heiner Goebbels, Lisa Gerrard, Lukas Foss, Nusrat Fateh Ali Khan, and Djivan Gasparyan.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Conto de Natal

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:

- Ó Quinhas anda ver!

Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:
- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!
- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.
Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:
- Lèrinho, Lèrinho!
Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.
Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.
- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.
E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…
- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.
Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?
Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.
 
Alexandre O’Neill
Exercícios de auto-apoucamento(com vista ao próximo Natal)