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domingo, 30 de junho de 2019

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um



Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.



José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis (2008)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Não há motivo para te importunar a meio da noite



Não há motivo para te importunar a meio da noite,

como não há leite no frigorífico, nem um limite

traçado para a solidão doméstica.


Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece

antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens

direito a um subsídio de paz.



Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te

importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas

de manhã cedo.



Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o

o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa

evidência me matar agora.



E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:

porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:

sabes que horas são?



Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda

mais comprida, com a insónia, com as palavras

a despegarem-se dos pesadelos.

 José Luís Peixoto

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

este livro


este livro. passa um dedo pela página, sente o papel

como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.



este livro tem palavras. esquece as palavras por

momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.



sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre

a tua. damos as mãos quando seguras este livro.



não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.

eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.



pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre

o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.


José Luís Peixoto