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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Subsídios para a biografia de Dinis Machado -António Lobo Antunes

O Dinis Machado, que foi toda a vida um miúdo do Bairro Alto, nos modos, nas partilhas, na roupa, que escreveu um livro maravilhoso, 
“O que diz Molero”, e praticamente, depois disso, não escreveu mais nada

– Porque é que não escreves, Dinis?
– Não me apetece
foi abordado uma vez, e eu a assistir, por um homem que lhe pediu cigarros na rua. 
O Dinis tirou o maço da algibeira, abriu a prata, examinou o interior a contar baixinho, somando o que lá estava dentro, e acabou por responder, de cara triste
– Eh pá não posso, só tenho dezoito
afastando-se a puxar-me o braço enquanto o homem se amargurava com pena dele só ter dezoito. A avó do Dinis dirigia uma casa de prostituição onde ele comia em miúdo com as raparigas que lá trabalhavam e das quais falava, é evidente, com o maior respeito. Levei-o para minha casa
(eu nessa época estava sempre a levar gente para casa)
onde ele ainda viveu longos meses, obriguei-o a escrever na mesa em que eu escrevia, alimentado a tabaco e a água das pedras, de vez em quando pedia-me
– Ó Tónecas
(nunca ninguém me tinha chamado Tónecas)
– Vai ao Santini buscar um gelado para a gente que é peitoral
eu lá lhe trazia o medicamento, de morango ou baunilha, que ele tomava numa repugnância de óleo de fígado de bacalhau
– Não é que me apeteça mas a saúde está primeiro
tirava o lenço do bolso, puxava da garganta uma escarreta que provava os efeitos benéficos do tratamento
– Já está a dar resultado, Tónecas
e lá voltava, enfastiado, ao papel, continuando um texto chamado “Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez”, Alfredo Marceneiro que nós encontráramos uma noite no seu Bairro Alto, sentado na berma do passeio, perdido de bêbado, e para qual o Dinis avançou a abraçá-lo
– Você é um génio.
O outro olhou-o sem o ver, oculto atrás de uma névoa de tinto, com o Dinis inclinado para ele
– Você é um génio
o Dinis
– Sabia que é um génio, você?
enquanto eu tentava puxá-lo
– Larga o homem que ele nem sequer te ouve
o Dinis insistia, inabalável
– Sabia que é um génio não sabia?
e foi um castigo para o arrancar dali
– Temos de tomar conta do Marceneiro que isto está cheio de cámones
lá o arrastei com ele protector
– E se algum cámone grosso lhe dá uma azevia na pantufa, já viste?
a procurar cámones fardados de marujos pelas redondezas
– Temos de encontrar o meu irmão Zéca que é presidente do Lisboa Clube Rio de Janeiro
uma associação desportiva que se dedicava sobretudo ao boxe, na esperança de achar um peso-pluma que ficasse junto a Alfredo Marceneiro em funções de guarda-costas, o irmão Zéca pequenino, gordo, de bigode, tipo Dupont e Dupond, pertencente a essa categoria de carecas que puxam o cabelo da orelha esquerda até à orelha direita
(agora toda a gente rapa a cabeça)
não estava, tinha ido acompanhar um peso-mosca com futuro a um combate qualquer em Alhos Vedros
(ainda haverá combates em Alhos Vedros, pelo menos foi esse o nome que um porteiro, a escarrar sobre o ombro, nos disse, Alhos Vedros, nunca vi escarrar tão bem neste mundo)
o Dinis insistia que, sem guarda-costas, se achava na obrigação de cumprir, ele mesmo, essas funções, e lá acabei por o trazer para casa, argumentando que não podia deixar o “Discurso a Gabriel García Márquez” a meio, ele
– O Marceneiro é mais importante do que qualquer livro
até o conseguir enfiar em casa diante do papel, prometendo-lhe um suplemento de gelado se ele se portasse bem. Sentou-se a contra-gosto
– Com a preocupação com o Marceneiro como é que queres que me concentre?
a olhar a parede em frente
(quem não gosta de olhar paredes vazias às duas da manhã?)
até a primeira frase lhe aparecer no bestunto, ajudando-o a esquecer o fadista, os cámones, o mano Zéca e o Lisboa Clube Rio de Janeiro. Felizmente havia um resto de Santini no frigorífico, o Dinis de caneta suspensa
– Se calhar estou um bocado grosso não achas?
e eu não achava nada, ocupado com a ideia do peso-mosca, em Alhos Vedros, a preparar um um-dois e um gancho da esquerda fatais que levariam o Bairro Alto aos cumes da fama em todo mundo, isto é à outra margem do rio onde uma aurora penosa, de outono, ia começar daqui a nada.

( revista Visão-25.05.2017) 

sábado, 27 de maio de 2017

A administração do tempo -Dinis Machado

 O excerto de um belíssimo texto  de Dinis Machado  sobre "a questão do tempo (...) aquela que estipula melhor  o que há de esquivo e penoso na efemeridade humana" .

Um relógio velhinho, velhinho, de aspecto curioso e particularmente vigilante. Nunca é  esquecido: muito estimado e tratado a tempo e horas.
Ilude, parece que tem vida ... Dizem que há quem tenha perdido a noção do tempo, por se  ter demorado a admirar o movimento contínuo daqueles olhos ao som dos ponteiros sempre a andar, a andar, sempre ...
 



"Olho o anúncio do relógio Omega. A vida não pára, fonte e foz, passar é a sua vocação - e o relógio fixa, ancorado no tempo, alheio a tudo: nove horas e treze minutos. Ou tem o mecanismo  escangalhado, ou esqueceram-se dele. Não administrado, ausente é a sua filosofia de pequenas rodas dentadas; ferrugenta e gasta, completamente inútil, a memória que não tem."
(Dinis Machado - Gráfico de Vendas com Orquídea
e outras formas de arrumar conhecimentos - 20 textos de 1977 a 1993- Lisboa, 1999, edições Cotovia ) 



quarta-feira, 13 de abril de 2016

DINIS MACHADO em REDUTO QUASE FINAL



                 Qual é o lado mais cómico disto?

   
    Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militantes, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença , a brutalidade , a estupidez , a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica - até o leito do sofrimento, o leito da morte. E eu : qual é o lado mais cómico disto ?


    Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos - e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim:
- Qual é o lado mais cómico disto?
     Quando a infância começou a ser perturbada por desetendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava ( dos meus avós, das minha velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.
    Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor do que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura, o corpo de borracha e a paciência dos grandes missionários da naturalidade.