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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Alexandre O’ Neill / Um Conto de Natal - Exercícios de auto-apoucamento ( com vista ao próximo Natal)

(  O culto da ironia.
Repetido, mas vale a pena reler. )

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:

- Ó Quinhas anda ver!

Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:

- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!

- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.

Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:

- Lèrinho, Lèrinho!

Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.

Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.

- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.

E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…

- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.

Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?

Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:

- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.



(Coord. de Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

domingo, 29 de abril de 2018

Amor Estrábico




Não que se lembrasse do "Ai ! tão pequenina e já d'óculos",  com que a gente que à sua volta se juntava a brindava num misto de espanto e comiseração . Era a mãe quem, mais tarde , lhe falava por graça desse episódio da sua infância.

Mariazinha tinha sido estrábica , foi operada cedo por volta dos cinco anos. Uns óculos minúsculos de massa esverdeada, tapados no olho esquerdo com adesivos pardos , continuavam no seu quarto e as fotografias da altura davam-lhe uma ideia da imagem que tinha nessa época.

(Aos seis tiraram-lhe as amígdalas, mas deram-lhe gelados em barda e uma espécie de mazagran de cevada que lhe ficaram para sempre na memória.)


Até aos cinco anos Mariazinha dava nas vistas, por assim dizer, chamava a atenção. Não fora um olho desalinhado, teria sido uma criança que passava despercebida.

Foi o que aconteceu mal o olho foi ajustado. Deixaram de reparar nela.

Cresceu pouco e c
resceu muito sozinha. Acanhada, os amigos que tinha contavam-se pelos dedos. Tornou-se uma mulher pequena , solitária e tímida

Um dia conheceu um homem muito grande, sedutor, manipulador.. Impunha-se, não a largava.

No calor de uma questiúncula ele atirou-lhe que ficava linda quando se irritava, porque os olhos viajavam às avessas , cada um para seu lado.

Aí sim: veio-lhe à cabeça o " tão pequenina já d'óculos", tantas vezes falado, mas nunca sentido.

-Como adivinhaste? - perguntou-lhe amarela-atónita

-Adivinhei o quê??!!! - retorquiu vermelho-fúria

-Que fui estrábica...

-Adivinhei nada , não foste: és!


Estupidamente, apaixonou-se por ele. Casaram no mês seguinte, prendeu-a até morrer.

LCB