quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ENTRADA

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem. Perdoem-me os leitores desta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro. Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles. Dou quatro exemplos:1) É nos loucos que grassam luarais; 2) Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Masse o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Manoel de Barros ( Brasil, 1916/ 2014), Poesia Completa

sábado, 9 de dezembro de 2017

Alfredo Marceneiro fala sobre o Fado

" - O que queres que eu diga?
   -Aquilo que o tio Alfredo sabe…
   -  Dediquei-me  a cantar o Fado. Tive, foi,o  condão que  Deus   me  deu de estilar...  tenho mais nada."

" a Amália, que tem a garganta mais linda..."
( tão  bonito e cheio de graça, embora não  o seja a situação  política a que se refere)



  Alfredo Marceneiro  conversa  com  Teresa Silva  Carvalho, José Pracana, João Ferreira Rosa e João Braga, seus "discípulos" e admiradores.
 Memorável lição sobre o Fado, dada por um notável estilista ( era assim que se auto-intitulava).


sábado, 2 de dezembro de 2017

Rui Oliveira e Ela Vaz-Sino da Minha Aldeia (Fernando Pessoa)

As publicações deste blogue acontecem, muitas vezes, por acaso. Há por aqui encontros inesperados.
Com direito (além da vozes e do arranjo musical) a um belíssimo assobio, este é um  feliz acaso.
Encantada.




Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

"LA SOIF DU MONDE" - Yann ARTHUS-BERTRAND

*À l'ordre du jour*


"Serons-nous capables d'imaginer une nouvelle culture de l'eau ?"
— Yann Arthus-Bertrand

Le film documentaire :



Après HOME et la série Vu du Ciel, le film documentaire de 90 minutes LA SOIF DU MONDE de Yann Arthus-Bertrand, réalisé par Thierry Piantanida et Baptiste Rouget-Luchaire propose un nouveau voyage autour de la terre.

Cette fois-ci le célèbre photographe s'intéresse à l'un des enjeux majeurs pour la survie des populations : l'EAU. Aujourd'hui, dans un contexte de forte croissance de la demande, d'augmentation de la population mondiale et d'aggravation des effets des dérèglements climatiques, l'eau est devenue l'une des plus précieuses richesses naturelles de notre planète Fidèle à la réputation de Yann Arthus-Bertrand, LA SOIF DU MONDE, tourné dans une vingtaine de pays, révèle le monde mystérieux et fascinant de l'eau douce grâce à de spectaculaires images aériennes tournées dans des régions difficiles d'accès et rarement filmées, tel que le Soudan du Sud ou le nord du Congo ; découvertes aussi des plus beaux paysages de notre planète, lacs, fleuves, marais, dessinés par l'eau.

LA SOIF DU MONDE fait donc le pari de confronter la fameuse vision aérienne du monde de Yann Arthus-Bertrand avec la dure réalité quotidienne de tous ceux qui sont privés d'eau, en meurent parfois et se battent sur le terrain pour se procurer l'eau, l'épurer ou l'apporter à ceux qui en manquent.

Le film est tissé de rencontres. Un berger du nord Kenya nous dit dans les yeux qu'il a tué pour de l'eau et qu'il le fera encore. Des femmes dansent lorsque l'eau arrive enfin dans leur village. Une ambassadrice des Nations Unies atypique explique son combat pour que les gouvernements s'engagent eux aussi pour permettre l'accès à l'eau et aux techniques les plus modernes d'épuration, garantes de la survie et de la santé des populations les plus pauvres.

Des reportages réalisés en Europe, en Afrique, en Asie, en Amérique, donnent la parole à ceux qui s'engagent et innovent, afin d'apporter l'eau où elle manque, l'utiliser plus intelligemment, l'épurer ou mieux encore cesser de la polluer.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Meditation ( Thais) de Jules Massenet- Petar Njegovan

O homem era duro de ouvido. Costumava dizer, com o seu inconfundível sentido de humor , que tocava muito bem campainha.
O rapazinho gostava de música, tocava violino desde muito pequeno. O homem chamava lhe Periquito.
Um dia perguntou-lhe se sabia tocar o Hino Nacional. O rapaz tocou. A partir daí, invariavelmente:
-Periquito, toca o hino Nacional.
Fazia-se silêncio e ouviam-se os sons de ”A Portuguesa”.
Todos os presentes, quase sempre os mesmos, adivinhavam já e respeitavam aquele momento.
A cena tinha graça. Mesmo que não tivesse, o homem e o rapaz não queriam saber. Era uma coisa deles, um ritual, uma forma de reconhecimento mútuo.
Durante anos foi assim. ”Periquito, toca o Hino nacional” acompanhou o crescimento do rapaz e o envelhecimento do homem. A vida de ambos.
Naquele dia solene o homem jazia sob uma antiga e delicada colcha de seda da Índia, que tinha sido usada em muitas cerimónias alegres da sua vida.
Um violino desconsolado chorava "Méditation"( Thaïs) de Jules Massenet . Periquito tocava com o que lhe ia na Alma.
LCB