sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Loucos de Lisboa - Rio Grande (Rui Veloso, Tim , João Gil, Jorge Palma, Vitorino e João Monge)

 Será que a  terra gira ao contrário e os rios nascem no mar?

Música: João Gil
Letra: João Monge



Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava
a bica, ao melhor dos seus ouvintes

As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia


São os loucos de Lisboa
Que nos fazem  duvidar
Que a terra gira ao contrário
E os rios  nascem  no mar

Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal

Compramos a entrada p'ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã

Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia

E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueam
Sentado la continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.

Lenda de Viana

Era uma vez uma pequena povoação nascida na margem direita do rio Lima, junto à foz, quando as águas doces e vagarosas se misturam com o bravio das ondas salgadas. Chamava-se Átrio e tinha, sobranceira, uma montanha densa de arvoredo, onde, no alto, existira a fortificação de um castro habitado por povos sem nome e que, a dada altura, desceram ao litoral, buscando, na pesca, melhor alimento e mais comércio. Era extremamente bela, entre veigas cultivadas, palmos de hortas viçosas, redis, pomares e vinhedos. Mas a sua principal vocação era, sem dúvida, o mar, a pesca.

E, na extensão fina de praia, várias embarcações esperavam as madrugadas para serem lançadas às vagas, com o afa dos remos, o aceno das velas e o espalhar das redes. Pelo entardecer, as companhas regressavam ao Átrio, para a alegria das mulheres e das crianças, com o fundo da embarcação farta de pescado palpitante: a sardinha, o carapau, a faneca, o congro...

Vinham, rio abaixo, muito habitante de outras povoações, para o abastecimento pródigo das suas mesas.

Ora morava no Átrio, na modéstia de um casebre, uma linda rapariga chamada Ana, filha de pescador e desenvolta na venda do peixe, sempre com uma canção nos lábios, ouvida a algum jogral chegado da vizinha Galiza, onde animava os serões dos paços e os terreiros das romarias.

Escutava-lhe, deliciado, estas cantigas de amor e de amigo, um jovem barqueiro que, empunhando a longa vara com que impulsionava o comprido barco de fundo chato, transportava, na correnteza do rio, até ao Átrio, várias vezes por semana, lavradores e mercadores à compra de peixe fresco e saboroso para dar prazer aos rigorosos jejuns. De tanto escutar a voz harmoniosa de Ana e de lhe admirar a graça, o rapaz começou a sentir pela rapariga um amor que ia aumentando dia após dia.

Confessara já aos amigos e companheiros de lida o agrado desse amor nascente. E estes, contentes com o seu contentamento, sorriam quando o moço barqueiro, ao voltar do Átrio, lhes atirava um brado feliz:

- Vi Ana! Vi Ana!

Um dia, porém, não se contentou em vê-la e dirigiu-lhe a palavra, num enleio que lhe corava as faces. A rapariga percebeu, então, o vivo interesse amoroso do rapaz por ela, os olhos dele, brilhantes, sobre o rosto dela, sobre os olhos dela, sobre os cabelos dela...

E o seu coração lisonjeado retribui-lhe esse interesse, retribuiu-lhe esse amor. Não tardou em realizar-se a boda dos dois enamorados.

Durante os festejos, bebendo vinho acre e refrescante gerado nos parreirais da região, os companheiros e amigos do noivo recordaram-lhe o brado entusiástico:

- Vi Ana! Vi Ana!

O dito foi logo adoptado pelos pescadores do Átrio que passaram a repeti-lo quando, vindos dos trabalhos duros da faina, se lhes deparava o vulto acolhedor da montanha, as praias doiradas, as veigas férteis, as águas lentas do rio e a paz dos seus lares:

- Vi Ana! Vi Ana!

Ao conceder o foral à povoação da foz do Lima, em 1258, o rei D. Afonso III, que a visitara tempos antes, extasiando-se com tanta beleza e prosperidade, substituiu-lhe o nome de Átrio pelo de Viana. Por certo, alguém lhe revelara aquele brado de amor. E só amor merece terra tão abençoada!

 António Manuel Couto Viana
 Lendas do Vale do Lima, Ponte de Lima, Valima, Associação de Municípios do Vale do Lima, 2002

  ***** 



domingo, 11 de fevereiro de 2018

Natalie DESSAY et Michel Legrand -"Papa Can You Hear Me ?" (Yentl)

(...)




Yentl is  a original play by Leah Napolin and Isaac Bashevis Singer.
Based on Singer's short story "Yentl the Yeshiva Boy," it centers on a young girl who defies tradition by discussing and debating Jewish law and theology with her rabbi father. When he dies, she cuts her hair, dresses as a man, and sets out to find a yeshiva where she can continue to study Talmud and live secretly as a male named Anshel. When her study partner Avigdor discovers the truth, Yentl's assertions that she is "neither one sex nor the other" and has "the soul of a man in the body of a woman" suggest the character is undergoing a gender identity crisis, especially when she opts to remain living as Anshel for the rest of her life.


Yentl (film)

After eleven previews, the Broadway production, directed by Robert Kalfin, opened on October 23, 1975 at the Eugene O'Neill Theatre, where it ran for 223 performances. The cast included Tovah Feldshuh, John Shea, and Lynn Ann Leveridge.

Yentl is a 1983 American romantic musical drama film from United Artists (through MGM), and directed, co-written, co-produced, and starring Barbra Streisand based on the play of the same name by Leah Napolin and Isaac Bashevis Singer, itself based on Singer's short story "Yentl the Yeshiva Boy".

( read more on wikipedia)

David Hockney making art with his iPad( 11-11-2016)

COMUNICAÇÃO


Para Albano Martins


pões uma pausa à volta de cada palavra.

em cada pausa circular colocas uma porta.

convidas outras palavras para irem ao encontro

dessa pausa, dessa porta.

cada palavra tem, então, dentro de si

outras palavras.

ninguém sabe. mais tarde, pões uma distância

à volta de cada palavra.

algures a meio, colocas uma janela. desafias

outras palavras para taparem essa janela

com os seus significados mais primitivos, de modo

a se não permitir a interrupção dessa distância.

ao longe ninguém dará por isso.

erradicas do teu vocabulário a palavra

«nomeadamente».

sabes que os poemas secundam a vida

e por vezes vão para além dela.

mais tarde, comunicas com o teu amor

mais distante.

envias uma carta. telefonas. mandas mail.

és experiente e superior porque te soubeste

condicionar de múltiplas maneiras.

sabes que o amor é a menor distância possível

entre dois seres vivos.



Tiago Nené

(Poemas de "Relevo Móbil Num Coração de Tempo"

Lua de Marfim, 2012)